sexta-feira, novembro 21, 2008
Curtas
Olho sempre alerta,
O centro deles, o dono,
a espera, o peito sempre aberto.
Poço de carinho, esperança e confiança!
A vida, a vida sempre pronta a ser dada.
Sim, não têm racionalidade, dizemos nós.
E nós temos, mas o que fazemos com ela?
Temos tanto a aprender... e tão pouca disponibilidade,
espera constante, fé numa segunda parte que não virá.
É aqui, hoje e agora.
Raios partam os cães,
que nos mostram o quão limitadamente humanos somos.
quarta-feira, outubro 29, 2008
O Lugar
Os futebolistas, tradicionalmente apelidados de "limitados", não escapam a este questionamento, se bem que sendo "limitados", o "mundo" a que se referem seja por inerência, limitado ou mais pequeno. Assim, fiquemos com o seguinte excerto, imaginado a partir da Futnovela do jornal diário RECORD, edição de 29 de Outubro de 2008.
Cenário, inicio de mais um treino matinal na academia de Alcochete:
Miguel Veloso (doravante MG) - Bom dia Mister!
Paulo Bento (doravante Tranquilidade) - Bom dia Miguel, dormiste bem, começou bem o dia?
MG - Iá, desde as 05:30, preparei 3 passagens de modelos, provei 3 fatos e duas t-shirts, arranjei as unhas, o cabelo, pintei os cabelos do rabo... hummmm, mais, mais, ah, e tomei um pequeno almoço equilibrado, pois não me esqueço que jogo futebol.
Tranquilidade - Muito bem. Olha, chegou-me aos ouvidos que não estás contente com o teu lugar no campo, de lateral esquerdo. E que tal um lugar na bancada central, serve-te?
MG - Huuuuu!!!
Pois é, o lugar de MG no mundo acabou de se redimensionar exponencialmente, quer ao nível postural, quer ao nível da amplitude de observação, pois passou da posição vertical à posição de sentado, e isto uns metros mais acima do nível do mar.
Já dizia o velho Sócrates, que uma vida sem exame, não é digna de ser vivida. Aproveita as lições do Tranquilidade MG e talvez ainda vás a tempo de ocupar o teu lugar no teu mundo. Por outro lado, o MG representa a crise educativa da nossa sociedade, que tendo muitos mestres, poucos servem de exemplo e os que o são, ou não podem ou não querem dar o exemplo, pois é mais fácil e lucrativo ser popular do que verdadeiro.
quarta-feira, junho 25, 2008
CT - Desabafo
E pronto, já está. Alterações ao código aprovadas, a CGTP-IN out a meio, de forma a manter-se o teatro ipsis verbis, e que vai sair daqui? Bom, para já aqui os desgraçados toca de gastar dinheiro num código novo, quanto ao mais, vamos ver. Amigos, amigos, o problema não vem da lei, mas da EFECTIVIDADE da mesma. Como alguém disse hoje na rádio, um dos ilustres, mas aqui num momento verdadeiramente ilustre, e não, não estou a ser irónico: - Deveria ser criada uma ASAE para as leis do trabalho.
Bem haja.
PS: e que tal uma ASAE para os políticos e políticas?
segunda-feira, junho 16, 2008
Os Caminhos do Amor - Meditação

Os caminhos do amor:
Um dos maiores desafios com que somos confrontados, penso eu, relativamente a qualquer questão durante a nossa vida, é a conjugação entre acção e palavra, especialmente quanto uma traiu a outra, ou mesmo que não tenha traído, uma vez que a expressão é já em si profundamente gravosa, revelou algum descuido para com a mesma.
Nas questões amorosas, e não nos detenhamos a meditar sobre o que é o amor, pois há aí muito de ditatorial, uma vez que o mesmo pode ser vivido de diversas formas, esta falha, esta falta de cuidado, descuido ou traição - no limite, pode revelar-se profundamente gravosa para a relação em questão (senão mesmo fatal) pois aquele que não cuidou, pode tender a exagerar na ânsia de recuperar da sua falta e esquecer-se do equilíbrio necessário, e aquele que não notificou a falta de cuidado, e não morrendo nunca a culpa solteira, pode tê-lo feito tarde demais, criando em si um vazio difícil de voltar a preencher.
Como voltar a ter aquela intimidade explícita num tom de voz, num gesto, numa comunicação surda que só ambos entendem, num nunca estar sozinho, mesmo a milhares de quilómetros, ou num estar a dois no meio de uma multidão? É isto que se perde na falha do cuidar e não a loucura do amor físico, pois que essa recupera-se facilmente, ou não tivéssemos nós toneladas de hormonas.
Se pudéssemos colocar em sacos de mercadorias o físico e o emocional, veríamos que os preços e os próprios pesos seriam radicalmente diferentes, especialmente com o avançar da idade, que acarreta consigo a perda de pudor, ou a desvalorização do mesmo, pelo uso confortável do corpo a nosso belo prazer. Já quando se mexe com factores íntimos, sendo que íntimo aqui se relaciona com aquela proximidade muito própria da emoção, penso que o caso muda um pouco de figura.
O íntimo é o mais difícil de conquistar, é a música silenciosa de qualquer relação, é o espaço onde todas as diferenças se encaixam e resultam numa harmonia fruto dessas mesmas diferenças. A intimidade, na opinião deste modesto pensador, vale por muitas noites de loucura física, até porque o corpo se degrada e vai perdendo fulgor. Corrijam-me se estou errado, sempre, que agradeço.
segunda-feira, dezembro 24, 2007
Pensar, Dizer - A alma do outro lado do espelho

Amadeo de Sousa Cardoso, A Máscara do Olho Verde
Pensar / Dizer
Como nos diz Kundera:
“ […] Um romance é fruto de uma ilusão humana, a ilusão de podermos compreender os outros. Mas que sabemos nós dos outros?”
“ O mais que podemos fazer […] é apresentarmos um relatório sobre nós próprios, cada um apresenta o seu próprio relatório. O resto não passa de um abuso de poder. Tudo o resto é mentira.”
quarta-feira, dezembro 19, 2007

No filme Uma Questão de Honra o veterano Coronel Jessep volta-se para o júnior e bom vivant Tenente Daniel Kafee e diz-lhe tão só:
The truth, you want the truth
You can´t handle the truth.
O bom e bruto do Jessep estava a dirigir-se à humanidade.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Ser Europeu
Caro professor.
Voltando à questão “ser europeu”. Do ponto de vista conceptual, e passando por cima dos factores históricos que levaram à criação desta velha (nova) Europa, é natural que me sinta orgulhoso, feliz, satisfeito, de pertencer a “este mundo” e não a outro, e neste sentido me sinta europeu. Esta Europa usa como bandeira a liberdade, a igualdade de oportunidades, a integração social, a partilha cultural, a ideia de espaço único, a questão da saúde, da educação, da democracia, da pluralidade partidária, dos direitos humanos, etc. Em certos países, mesmo nos dias de hoje, muitos destes conceitos não podem sequer ser referidos fora dos cânones definidos pelos estados e regimes vigentes. Assim, sinto-me privilegiado por ser europeu e por ser português e não me imagino noutra situação.
Contudo, e penso que a espontaneidade da minha resposta passa por ai, do ponto de vista prático, há alguma desilusão e cepticismo face a esta Europa e também a este Portugal. Há alguma desilusão face aos representantes e também face aos representados, nos quais me incluo, há alguma desilusão face à aceitação duma globalização que considero não global, dos valores defendidos e às vezes parece que o espaço europeu é visto como aquilo que não pretende ser, penso eu, isto é, como uma barreira face aos outros espaços, como se as questões estatais passassem de micro questões, num processo de metamorfose, a questões do espaço europeu e, como tal, em macro questões. Procurando simplificar, num avançar uns metros com as barreiras.
Há algum cepticismo em relação à capacidade desta Europa, e destes políticos, de gerirem as muitas bombas relógio que existem dentro do espaço europeu e as que serão importadas com o alargamento, pois a diferença de solidificação dos regimes políticos e dos valores europeus, que até este período têm sido mais ou menos homogéneos (se bem que Portugal e Espanha aquando da entrada na CEE tivessem saído de ditaduras há relativamente pouco tempo, mas tinham por trás de si alguns séculos de história que já haviam conhecido certo tipo de valores que hoje se defendem). Vejamos como reage a velha Europa à questão Turca, à questão Israelita e às recém criadas repúblicas de leste.
Do mesmo modo, mesmo dentro da velha Europa, espero que um dia não façamos uma analogia com a pobre velha música de Pessoa, existem práticas e metas diferenciadas que nos podem fazer sentir menos europeus ou europeus de segunda.
“Tive um sonho”, disse Martin Luther King, não o chegou a viver. Eu não sou uma pessoa muito viajada infelizmente, mas na última vez que o fiz, foi para me deslocar a Paris. Já havia lá estado e não quis subir a torrei Eiffel com os meus familiares e amigos. Ao invés, sentei-me no chão, mesmo no centro da torre, fechei os olhos e senti-me a viajar pelos quatro cantos do mundo, única e exclusivamente graças aos idiomas. Tive a experiência de cidadão do mundo, de igualdade na diferença, sem barreiras. É poesia existencial, de valor estético, sem dúvida, com uma modificação ontológica localizada, mas foi uma sensação de pertença, de forte pertença à espécie, ao mundo. Seria perfeita a transposição para o plano geral, das nações e dos ideais. Mas estará a espécie humana preparada para ser humana? Foi um à parte, não resisti.
sexta-feira, agosto 31, 2007
Simples mas eficaz: O retrato de 66 anos de CIA
«I am not afraid from them....
me fear is from guys like you.
You make the big wars.»
«Wrong, we see that they stay small.»
Robert de Niro, The Good Shepperd, Dialogue between Joe Pesci and Matt Damon
sexta-feira, agosto 24, 2007
Meditação:
Deste modo, somos caminhantes que na mochila levam esperança, saudade e também algo que comer.
Saudade
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
Fernando Pessoa
quarta-feira, março 28, 2007
Salazar; Democracia? Tolerância? Liberdade? Apatia....

Conclusão, Salazar, mesmo morto, deu um salto ontológico e tornou-se estrela principal do texto escrito há anos por Mário Zambujal, intitulado "Crónica dos Bons Malandros"
quinta-feira, abril 20, 2006
Meu Velho
«Everything about him was old except his eyes
and they were the same colour as the sea and were
cheerful and undefeatead.»
Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea
Lisboa, 3 de Abril de 2006, numa cadeira da faculdade
Ao longe, o mar
Não tinha os olhos azuis, antes pelo contrário, eram castanhos, pequeninos, curiosos, de "boxeur" como ele dizia, pois adorava boxe, mas seguindo o ponto de vista de David Lynch, no seu filme Dune, no qual os Fremen - o povo do deserto - ficavam com os olhos azuis em virtude do contacto com a especiaria, isto é, identificavam-se fisicamente com a sua vida, com a sua forma de estar (ou seja, tornavam-se aquilo que eram em virtude daquilo que faziam, havendo nesse sentido uma essência que se constrói por metamorfose) então os seus olhos tinham o mais profundo dos azuis.
Faz hoje oito dias que partiu, que agarrou nos remos pela última vez e zarpou, rumo ao horizonte, lá onde o céu se mistura com a terra. Ajeitou o seu boné, a "minha cabeça" como tantas vezes disse, sorriu e disse até logo. De certeza que está com duas ou mesmo três pescas na mão e ainda consegue remar, sim, porque o seu motor de bordo só serve mesmo para "ir com a enchente e regressar com a vazante". Era o que nos respondia quando nos referíamos ao pequenino motor de dois cavalos. Respostas de teimoso e de gozão, de anzol como lhe chamavam.
Era assim na vida e não só nas respostas. Era teimoso e discutia cada assunto de forma convicta e inflexível, sem ceder um milímetro. Ouvimo-lo argumentar muitas vezes que "só é penalty porque é contra o Benfica" ou "na Madeira sobe-se mais do que aquilo que se desce". Era de exasperar. Mas até dessas coisas tenho saudades. Pela primeira vez em quatro anos, isto fora todos os almoços de fim-de-semana, ou durante a semana, quando mandava chamar os netos porque tinha peixe fresco para o nosso almoço, estou sozinho em casa. Já não lhe escuto a bengala, já não lhe escuto as lamúrias pela doença, nem pela sua já ida Maria, já não espreito no quarto para vê-lo a fazer ginástica com o braço paralisado. Já não lhe escuto os elogios que me fazia quando vestia o traje "eia, todo nito, és elegante e deves ter muitas atrás de ti. Isso fica-te bem é a ti e não àqueles gordos malfeitos" ao que respondia chamando-lhe velho atrevido e dando-lhe um carolo na careca. Já não oiço mais a perguntinha da praxe se o jogo de futebol que ia jogar "dava na televisão e em que canal". Sinto saudades da bisbilhotice de cada vez que ia sair e me perguntava "onde vais e a que horas vens? ..... Para Lisboa, a esta hora, já tão tarde, não vais fazer boa.." e eu que detesto que me perguntem o que quer que seja. Já não o levo às sardinhas nem ao choco frito, onde discutia comigo ao milímetro quem comia mais e me rebentava os nervos com as horas, sim porque qualquer hora depois do meio-dia dava direito à piadinha das "três da tarde" e de "já comeram o peixe todo".
Na fase final da doença, voltava-se contra mim muitas vezes, ao que lhe respondia que já não era ele a falar e que se acalmasse. Recuperava, pedia-me desculpa, dava-me a mão e dizia "vamos ficar amigos que gosto muito de ti". Muitas vezes perdi a cabeça, sentia falta de capacidade para tamanha aberração do ser humano e almadiçoarei esses momentos para sempre.
Foi assim o dia a dia com o meu lobo-do-mar, do céu ao inferno, o meu boletim meteorológico. É duro para o ser humano experienciar as regras da vida através de acontecimentos com os que mais gosta. Somos um mau laboratório, com emoções, e é muito nazi sofrer à proporção do amor sentido, mas a vida é mesmo assim. Era um amigo, um companheiro, um pai, foi tudo, ajudou-me e preocupou-se até ao fim. Nos últimos dias pediu-me a morte por mais de uma vez, ao que respondia "não está nas minhas mãos meu velho, está nas mãos de Deus, senão dava-ta, para partires em paz, meu velho". Dizia isto com dor, mas de bom grado, pois já não era viver, tamanha energia, tamanho vigor, não mereciam estar ali presos naquele resto de corpo, naquela mente 90% já ida. E a hora dele chegou e fui assaltado pelos maiores terrores, pela perda, pelo irremediável. Já não o verei mais, terei de me reduzir à chaga da memória, que falta de poder este. A vida é maravilhosa, já as suas leis não têm especial piada.
Naquela noite, em que a respiração já era ofegante e em que a sua alma já havia partido, fui dar-lhe um adeus antes de me ir deitar, sem que a crença de que iria resistir me abandonasse. Mas a respiração, o não se manifestar, a sonda cheia e até o nervoso miudinho do cão que teimava em não abandonar os pés da cama, não me davam margem para grande esperança. Era a crónica de uma morte anunciada, era a gadanha que estava prestes a cair face ao eminente xeque-mate.
Mas a crença, a crença, a esperança, é onde se joga o horizonte de possibilidade do humano e nunca nos abandona e quando o faz é o caos, é o fim. Tinha-me ido meter com o velhote durante a tarde, desafiá-lo para a pesca, pois de cada vez que me ausentava, no regresso ia sempre meter-me com ele. Depois de chamá-lo algumas vezes e de lhe dar a mão sem resposta anímica, disse "já cá não estás meu velho".
A minha mãe, que não o deixou um minuto (coisas de mãe), entrou-me dentro do quarto às 03:15 e disse-me que o avô havia partido. Fui vê-lo, tapei-o e fui repousar. Xeque-mate, perdeu finalmente o jogo. Ali ficou, inerte, até ao raiar do dia, mas já não era o avô, já não havia o sopro. Olhava-o de alto a baixo, procurava um franzir de olhos, imaginava que via o peito a mover-se, mas era do cansaço, do desespero e da .... Esperança. Havia mesmo partido. Eram 11 horas quando o foram vestir e buscar. Depois de vestido, enquanto tratavam de tudo que se relacionasse com a transladação, coloquei-me na cabeceira da cama a conversar com o meu velho, mas não me respondia. Ofereci-me para o carregar, mas não me deixaram... só não o queria deixar partir.
Já passaram oito dias e ele teima em não regressar a casa, será que está bem?
«He was still sleeping on his face
and the boy was sitting by him, watching him.
The old man was dreaming about the lions.»
Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea
domingo, janeiro 29, 2006
Nevou em Setúbal - 29 de Janeiro de 2006

sábado, dezembro 31, 2005
Bom Ano
«[...] O vencedor goza, para o resto da vida,
uma ventura doce como o mel, graças aos prémios.
Um bem que não se perde acompanha os mortais
até ao fim.[...]»
PÍNDARO, 1ª Ode Olímpica, antístrofe 4ª 95 - 100, Tradução de Professora Maria Helena da Rocha Pereira, Biblioteca Sudoeste, Porto 2003
Agora que entrámos nas últimas 11 horas deste ano de 2005, que entrámos nesta coisa que gostamos de chamar de "contagem decrescente" - e não andaremos nós sempre em contagem decrescente, neste nosso encaminhamento para nenhures - venho deixar aqui o apelo e os votos de um excelente ano de 2006 a todos aqueles que conheço. Sim, não só a amigos, ou colegas, ou familiares, nem em especial para nenhum deles, nem hipocritamente para todo o mundo, ao modo do concurso miss universo, mas sim para todos os que conheço.
Não sendo claramente perceptível nenhum corte de um dia para o outro, que o façamos na nossa mente; se não com a nossa vida quando a mesma corre bem, que façamos então uma ponte na renovação da esperança, neste embalar doce que nos abre para mais sentido, para a expectativa total em torno de nós, em torno das possibilidades da nossa existência e que nos permite ser, que nos permite continuar a ter tudo para ser na direcção do horizonte da felicidade.
Deixemos de lado o apelo amargo da saudade do que já foi, do que já fui, esse apelo surdo, voraz, cadenciado e impossibilitador da concretização da nossa existência, esse querer ser onde já não se está e onde já se foi e que nos rouba território para ser.
Assim, continuemos esta nossa valsa mortal, vamos levar esta "nossa doença" a bom porto, buscando a calma, a tranquilidade, procurando a clarificação e sossego da consciência. Esforcemo-nos por ser correctos, rectos, justos, nem que para isso tenhamos que sofrer e nos prejudicar. Esforcemo-nos por nos deitar não na companhia de fantasmas ou vozes, a voz do podia ter sido, do podia ter feito, mas sim na companhia das estrelas, pois sempre que consigamos inspirar e expirar fundo, sempre que consigamos dar uma cadência de paz e tranquilidade a esse ultimo acto de vigília antes do sono retemperador, teremos por tecto as estrelas e não a clausura de uma parede paralela a nós que serve de topo à cela a que chamamos quarto, pois muitas vezes o chamado refugio é nada menos que a cela, essa cela onde somos forçados a conviver connosco, na mais pura perantidade que é estar aqui, no mais puro dos isolamentos e onde o monólogo dialogado é mais forte e intenso.
Desejo-vos a vós e a mim, paz, calma tranquilidade e força, força para continuar esta valsa, força para ver neste ganho de lucidez que é a consciência de si uma bênção e não uma força impossibilitadora, de vontade de desistência, e como é feroz adornar uma anulação - uma paragem - com um elemento linguístico indiciador de acção.
Bem hajam todos vós, até 31/12/2006 e renovemo-nos todos os dias.
sexta-feira, junho 17, 2005
O Elogio da música
Ornatos Violeta e Madredeus, Chaga e Alfama, respectivamente. Deixo-vos as letras e espero que quem não conhece procure ouvi-las. Para mim são tudo. Como diz o título do segundo e último álbum - infelizmente - dos Ornatos Violeta, o monstro precisa de amigos.
Chaga
(Cruz/Peixe, Cruz)
foi como entrar
foi como arder
para ti nem foi viver
foi mudar o mundo
sem pensar em mim
mas o tempo até passou
e és o que ele me ensinou
uma chaga pra lembrar que há um fim
diz sem querer poupar meu corpo
eu já não sei quem te abraçou
diz que quando eu senti teu corpo sobre o meu
quando eu cair
eu espero ao menos que olhes para trás
diz que não te afastas de algo que é também teu
não vai haver um novo amor
tão capaz e tão maior
para mim será melhor assim
vê como eu quero
e vou tentar
sem matar o nosso amor
não achar que o mundo é feito para nós
foi como entrar
foi como arder
para ti nem foi viver
foi mudar o mundo
sem pensar em mim
mas o tempo até passou
e és o que ele me ensinou
uma chaga pra lembrar que há um fim
Alfama
(P.A.Magalhães/Rodrigo Leão)
Agora
que lembro
As horas ao longo do tempo
Desejo
Voltar
Voltar a ti
desejo-te encontrar
Esquecida
em cada dia que passa
nunca mais revi a graça
dos teus olhos que amei
Má sorte
foi amor que não retive
e se calhar distraí-me
qualquer coisa que encontrei
quarta-feira, junho 15, 2005
Imortal é conseguir ficar por cá depois de ir
"[...] só a ti canto, pois já não sei outra forma de ser e de encontrar-me."
Obrigado e até sempre.
quinta-feira, junho 09, 2005
Sociedade in Redutio ad absurdum - Cristiano Ronaldo - 115 mil, uma ninharia
sexta-feira, maio 27, 2005
A magia das crianças / O orgulho nos meus amigos
Falta-me agora ter o prazer e o orgulho do observar o amigo Emanuel, Bruno Almeida e Alexandre Silva. Parabéns "soc´s".
Agora as crianças, que alegria na alma daquela gente de 1/2 metro. Uma bola, umas balizas, poucas regras, equipas e já está, uma tarde de sonho para mais tarde recordar vivida no palco pisado por tantas estrelas, por tantos ídolos. Imagino a frase que mais dominou as conversas da segunda-feira - e também quantos não tiveram que ser "acalmados" para dormir nessa noite, acalmados daquele modo que os pais às vezes têm de usar - "Eu estive lá...".
Vi um "artista" marcar um golo e correr para a bancada, primeiro a apertar o simbolo do Vitória na camisola e depois a apontar para a bancada, de indicador em riste, como os craques fazem, só faltando mesmo o tradicional beijo na aliança, sendo que esse ainda vem longe, vi outro, chamado Hugo, cujo colete era maior que ele e sem dúvida era daqueles que chamam para si um carinho especial. Enquanto a bola estava longe ele era pulos, cabalhotas, "sapos", tudo o que significasse na sua cabeçita alegria e liberdade. O melhor e que me fez mesmo rir, foi quando soube o nome do pirata mor pois, isso mesmo, EDUARDO.....! No fim, o desfile, o tradicional "Somos os melhores..", "Somos Campeões..", não fossem os professores e teria havido sururu, de certeza.
Dois lamentos, deixo aqui dois lamentos. Primeiro, um pai que se abeira do professor e que pede - leia-se: exige - que os meninos saiam mais cedo porque tem de ir para o Algarve. Começa aqui a desresponsabilização, a falta de cuidado, pois há semanas que sabia que as crainças só poderiam sair às 18:30 e não antes. Porque é que colocam os filhos nisto? para fazer estatuto, para os mesmos terem distracção, para conviverem? O futebol não é mais o parente pobre da sociedade, está a mudar. Acabaram os treinadores barrigudos, acabaram (estão a acabar) os ex-jogadores que bastava serem isso mesmo para orientar alminhas. Chegaram as academias, chegou a ciência, a educação, a pedagogia. Mas como em tudo, tem de começar em casa, e não é por ser filho de A, B, C, D que pode sair mais cedo, A, B, C, D não faz um favor ao Vitória de Setúbal por ter lá o filho, não faz um favor aos seus profissionais que tiraram as suas licenciaturas e muitos os seus mestrados e doutoramentos. Não, pelo contrário, o Vitória e os seus profissionais é que prestam um serviço muito útil às crianças desta cidade, mesmo aos filhos do magânime A, B, C, D que por sinal, coordenação de movimentos não é com eles.
Mas o professor está lá, não faz distinção, pois nesta fase aquilo que é mais importante é a criação de laços com o desporto, a compreensão do mesmo, o conceito de equipa, o relacionamento. Isto é pedagogia, isto é um trabalho árduo e não deve ser desvalorizado em prol de outra profissão qualquer. Se assim for, se assim fosse, talvez daqui a uns anos não hajam João Pintos a bater em árbitros, talvez nunca tivesse havido. Com as escolinhas de futebol, talvez deixem de existir as poucas-vergonhas da Avenida dos Aliados ou dos instantes finais da festa no Estádio da Luz.
Daqui parto para outro lamento. Existem pais que não colocam os seus meninos nisto pois vêem o futebol como formação de brutos, de asneirentos que não estudam, enfim. Que pena, como gostaria de ver o meu Pedrocas ou o meu Manelito - um pirata que não se chama Eduardo - a beijar o símbolo depois de um golo, a cortar um lance na área, de carinho e depois a saltar no meio dos colegas.
As escolinhas de futebol são excelentes modelos de formação e educação, mais do que isso, de entrosamento, pois as grandes famílias acabaram. Hoje, a família de um filho, quase sempre único, não são os cerca de 20/30 primos - como os que eu tenho - mas sim o vizinho do lado, o colega de equipa, os colegas da escola ou colégio. Os passes longos e medidos, os remates à trave, a relva, o sintético, substituíram as cuecas entre passeios e carros, os remates ao vidro da vizinha, as quedas no alcatrão e no ringue do bairro. O tempo avançou papás e o futebol também. Que pena não ter sido um dos meus pirralhos naquela relva, naquela tarde de sábado.
domingo, abril 03, 2005
Adeus exemplo de vida plena
"Não fiquemos tristes por tê-lo perdido. Agradeçamos o facto de tê-lo tido."











