quinta-feira, junho 13, 2013

6 Anos

Gea e Gaivotas, Igirl



Chama-se Gea, e é uma graça.  
E salta e pula e bola e rebola,
Quase caiu…
Mas levantou-se.
“Adora” pássaros, de preferência na boca,
E salta e pula e bola e rebola.
É assim “a minha” cadela,
Amiga e companheira,
Que quase caiu, que quase caímos,
E nos levantámos!
E está viçosa, formosa e à minha espera,
Enquanto salta e pula e bola e rebola.
Dorme, come, passeia e repousa,
Por vezes amua, só visto.
É assim a sua vida, salta, pula, bola e rebola,
E espera por mim e esperamos um pelo outro.
E hoje faz 6 anos, já quase caiu, mas levantou-se.
Vai formosa, esbelta, pirralha e faz 6 anos.
Chama-se Gea, tem a força da Terra.

Ulaanbaatar, Mongólia, 13 de Julho de 2013

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Até ao teu regresso


The Traveler,  
Constable-John
 
Querido Pai,

Olá, bom dia.O tempo está agradável, a temperatura não muito baixa e apetecia-me falar sobre tantas coisas, que inevitavelmente acabariam em discussão, claro, pois consegues irritar-me ao ter razão quase sempre e em quase tudo. Mas afinal, ser pai não é isso mesmo? 

Sabes, sinto-me cada vez mais parecido contigo, até na emotividade contida, na raiva enclausurada de querer disparatar com tudo e com todos, sabendo que não o devo fazer, sabendo que não o posso fazer. Envergonhado, acanhado, sempre no meu canto, o fazer o que tenho a fazer, mas preferindo manter-me na sombra, anónimo. Irritantemente parecido, mas ainda bem.


O que digo eu, claro, O Benfica, o nosso Benfica, quão irritado deves andar lá por essas terras para onde te decidiram enviar, como se já não tivesse chegado África. Que me tens a dizer, o que, não te oiço, tens de voltar homem, estou farto de falar com as paredes. Ah, o carro, pois, sem comentários. Sabes, uma marca americana fez-me lembrar de ti, terá sido a marca, não sei, olha, construíram um carro completamente eléctrico. Que me tens a dizer, o tradicional “qualquer dia os carros não precisam nem de mecânicos, nem de bate-chapas, é comprar e vender”, qualquer coisa assim. Ficaram coisas por dizer, claro, mas isso ficaria sempre, nem que por cá andássemos até ao fim dos tempos. Aquilo que verdadeiramente me aborrece é que há tanto para dizer e isso sim, não posso fazê-lo. Irritante isto, volta rápido ou então fazes-me ir ter contigo, mas isso sei que não queres, não ainda.


Mas o que mais me irrita é o ter-me apercebido, ou confirmado, que com todos os teus múltiplos defeitos – com todos os meus profundíssimos defeitos – eras e és o meu grande amigo e compadre, um verdadeiro e único pai. Se há algo a pedir desculpa, foi o não te ter aproveitado mais, mas se assim já é dolorosamente insuportável, nem imagino como seria se o tivesse feito. 


Deixaste-me grande chato, deixaste-me e não sei o que fazer, sinto-me completamente perdido e só me apetece fugir para a tua sombra, como tantas vezes fiz. Não digo isto porque a vida me corre bem ou mal, apenas porque o sinto, sinto-o profundamente, sinto uma profunda vontade de me sentar ao teu lado, de conversar contigo a caminho do café ou durante o almoço, ou olha, que me rebentes a cabeça por o carro ter as rodas sujas…… de lama. És assim, de extremos. E as surpresas aos netos, que falta cá fazem. Agora por isso, como bem deves saber, foste avô, finalmente tivemos uma menina. Seria o teu regalo meu grande chato.


Porquê não só mais um ano, dois, três, espera 10, pelo menos 10. Chato, porquê tão cedo e a ultima coisa que te disse, já nem ouviste, mas oiço-me a mim todos os dias a dizê-lo. As experiências da vida têm contornos de absurdo, de dor profunda. 


Meu grande velho, a quem nada sabe muito bem, tudo e feito porque sim, mas cuja parceria me faz tanta falta. Lembras-te, chamas-me o “Zé das Calmas”, muita dessa calma foi contigo, é em grande parte a tua presença e existência a fonte dessa calma. Afinal, fora o moeres-me a cabeça no processo, quando e que me deixas ficar mal? Só quando não estas.


Desculpa, mas não consigo dizer adeus, só até já, e isto e tão mais frustrante quando não consigo exprimir-me ou sequer chorar sobre isso. Partiste e deixaste um vazio impossível de preencher que chega a deixar-me sem vontade de fazer o que quer que seja. Sinto-me abandonado, sem timbre, olha, como canta o Rui, sinto falta do teu jeito fechado, o jeito de quem mói um sentimento, tal como eu. O silêncio do miradouro, aquelas ruas, a rua onde tive o meu primeiro acidente ao volante, lembras-te? O ar primaveril da Todi, o final de tarde na lota, a travessia do Sado, sempre bela, revelando sempre algo de novo, o hino das Papoilas que não se consegue cantar desde o dia que a notícia se soube; fica preso na garganta, não sai, o vibrar das cordas cede o lugar ao correr das pequenas lágrimas. Tu em tudo, tu em mim meu velho. Chato. 

Sabes, andei por Paris novamente, e fartei-me de conversar contigo, especialmente quando visitei o stand de vendas da Renault, nos Elísios. 


Olá bom dia, boa tarde, boa noite, qualquer coisa menos Adeus. O meu reino por ti, como o William ensinou. Já não chegou África homem? Quando voltas?

PS: De vez em quando deixo crescer a barba, como tu. Olho-me ao espelho, vejo-te e ajuda um bocadinho.

Pessoa entende-me, bem e sempre



The violin Player, Louis-Alexandre Dubourg



Pobre Velha Música!  

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora. 


Pessoa, Fernando, in "Cancioneiro"

quinta-feira, outubro 04, 2012

E agora, se são eles que pagam a democracia?





Infelizmente, ou por motivos menos felizes, estive toda a manhã a assistir ao debate parlamentar, exemplarmente transmitido pelo canal Sic Notícias, sem novelas ou interrupções, minimizando ao máximo as intervenções da comentadora. O que retiro do debate e que todos os portugueses deveriam retirar, ou pelo menos reflectir sobre, pois não quero dar laivos de ditador, reproduz-se através da seguinte metáfora, da autoria de um muito respeitado amigo, Hugo Simões, a saber:
Temos 3 restaurantes numa rua, o A, o B e o C. Uma semana vamos ao A e aquilo não presta, noutra semana vamos ao B e aquilo ainda presta menos. Umas semanas após, indecisos, voltamos a ir ao A na esperança que esteja melhor.

Pois é isto que se passa connosco há já 38 anos, isto é, continuamos a apostar em A e/ou em B e depois choramos. Agora e nesta linha de pensamento, analise-se a intervenção da Deputada Teresa Leal Coelho, outra daquelas que vive do politiquismo português.
Na mesma a senhora disse que foram os portugueses que escolheram este governo, procurando assim demonstrar, segundo o seu ponto de vista, o carácter ditatorial e inoportuno das moções apresentadas por BE e PCP, acrescentando que os partidos da esquerda estão sentidos com a comemoração - ontem - da queda do muro de Berlim, que permitiu à senhora Merkel, vinda de leste, liderar a Alemanha. Terminou com a pérola de que é a Troika e não Moscovo que paga os vencimentos dos deputados e que alguns deles, bloquistas e comunistas, vivem no mundo de Alice.
Devo confessar que fiquei de boca aberta e que há muito que não via tanta asneira junta e tamanha incompetência vinda de um deputado eleito. Erros de palmatória indesculpáveis, remissões históricas grotestas levam-me a concluir que a intervenção da deputada Teresa só encontra paralelo em conversas de taberna bem regadas. Haja tento senhora deputada.

Ponto a: Os portugueses não escolheram este governo, mas um programa de governo ou uma ideologia de base, a saber, social democrata. Os governos são constituídos a posteriori.

Ponto b: Ditatorial e sectário é o governo que viola tudo aquilo com que se comprometeu para com os portugueses, na pessoa do seu líder na época da caça ao voto, aliás já demonstrado naquilo que se pode chamar de "ensaio sobre uma vitória que há-de vir" ao derrotar o PEC IV transpondo-o agravado para o orçamento de estado e políticas governamentais.

Ponto c: Ninguém no seu perfeito juízo chora pelo muro de Berlim e é absurda a referência, mas para que saiba, a Europa que tivemos até ao EURO, já nem digo até ao muro, foi construida do ponto de vista social como resposta a um sistema político e a senhora Merkel, como primeira barreira a essa mesma Europa, sofreu bem na pela a dicotomia. Agora pergunto-lhe: Morrerá a senhora Merkel de amores pela Europa Social? Será Comparável a Kohl ou mesmo a Schröder? Não preciso responder, pois o seu grande adversário nas próximas eleições, ex-ministro das finanças alemão Peer Steinbrück já deu lhe, a si Teresa, essa reposta.

Ponto d: Este ponto encerra o seu chorrilho de asneiras e só pode ser comparado ao seu chorrilho de asneiras profissional. Então é a Troika que nos paga os vencimentos e por isso devemo-nos calar e aceitar tudo, abdicando de direitos constituicionais e de cidadania? Quem é sectário aqui? Neste ponto nem preciso de me “estender” muito, pois ando a ler uma publicação da Notícias Editorial intitulada "O Estado de Hitler" que me tem demonstrado que o "vamos aceitar tudo caladinhos esperando que isto melhore" é o caminho certo para a desgraça em qualquer país do mundo, isto do ponto de vista político claro. Terminado isto pergunto: Quem é que anda num mundo de Alice? Acho que é mais a senhora, sendo que o seu mundo de Alice é carregado de bolos, pão fresco, queijo, fiambre, carne, peixe, tudo regado com bom vinho ou água mineral e outras mordomias tais.

terça-feira, junho 19, 2012

A tentativa de um "What if"



"Uma espécie de espelho, que nós não queremos mirar, mas ele mira-nos a nós. O homem é o Deus de Michael e o seu Édipo." 

Halpern, Manuel "Os Deuses também se abatem", análise on-line do filme Prometheus

Cyborg, ou o homem reconstruido por si numa tentativa de construção de um si para análise distanciada, impossível por natureza. O homem forjado com as suas fobias e esquizofrenias. Relatividade analítica, por posicionamento (cyborg), Absolutismo ontológico, por condição (homem). Um dos maiores mistérios das religiões e das mitologias. Um cria o deus palpável - que de deus não tem nada, ou terá - o outro continua preso em si, recriando-se, descobrindo-se dia-a-dia.

segunda-feira, maio 07, 2012



Uncle Tom and Evangeline, Anonymous

“This is an age of the world when nations are trembling and convulsed. A mighty influence is abroad, surging and heaving the world, as with an earthquake. And is America safe? Every nation that carries in its bosom great and undressed injustice has in it the elements of the last convulsion.”

Stowe, Harriet Beecher, Uncle Tom´s Cabin, or Life Among The Lowly, JHL, Cambridge Massachusetts and London, England, 2009, pag., 583

Será estranha esta afirmação? De “estranho” só terá a data do texto (1851) especialmente se tirarmos o país da citação, sendo que, mesmo isso não é condição sem a qual. Como se justifica então? Simples, muito simples, recorrendo a uma paródia com um título Delleuzeiano, por (in)Diferença e Repetição. Por isso podemos dizer que do ponto de vista humanista estamos tão longe de Platão como estava Sócrates.

terça-feira, abril 24, 2012


 Work Seeker, anonymous.

Manhã de Abril

Vozes que em tempos se ergueram,
Para que outros o pudessem fazer.
Peitos que se deram à espada,
Costas que se dobraram à força da inrazão,
Caras que se deram à morte,
Almas que se mantiveram vivas…
E hoje? Misto de traição,
Quais espectros políticos filhos de velhas juventudes,
Repousamos, dormimos,
Nas sombras do caminho que outros desbravaram.
Supostamente livres, antes vergados perante a ordeira inrazão.

Silenciosos, calmos quais cordeiros,
“Não pode ser senão assim”,ouvimos, 

Ouvimos e calamos.
Vida que temos na cara,
Alma que carregamos morta.

terça-feira, março 27, 2012

Cartas de um Naufrago - 9ª Entrada

«É manhã, um vento frio corre-me pelo rosto, enquanto passeio pela praia, bem junto à orla marítima. A aragem que corre por cima do mar, por vezes empurra um resto de ondulação para cima dos meus pés e tornozelos. Está quente a água do mar e fico como tendo dois corpos, o superior arrefecido pelo ar frio e o inferior, aquecido pela água. Sensação bizarra, Kafkiana. Seria um, dois, vários, aqui, agora, antes, depois. Muito nos faz pensar a solidão.


Confesso que me sinto perdido, como que a enlouquecer. Os meus pensamentos correm a uma velocidade alucinante, dando muitas vez por mim a dialogar. Dialogar? Falo comigo, construo personagens na minha cabeça que mais não são que reconstituições imateriais da chaga física provocada pela memória, ultimo bastião de reconhecimento, pois tudo aquilo que é, presentemente é novo, sem qualquer ligação. Tenho a possibilidade de construir um mundo novo, mas para quê e para o quê? Sem qualquer ligação ao que quer que seja, não sou nada; Sim, é um facto, tenho sempre todo um mundo à minha volta, seja ele de madeira, cimento, verde, preto, amarelo, sei lá, e tenho, presentemente, todo um admirável e belo mundo à minha volta, mas ele é mudo, mudo e a interacção é sublime, só percetível pelo que me pode ou não acontecer. Do mesmo modo, não é sempre assim?

Comparando o horizonte factual a um manequim, concluímos que seja qual for a roupa com a qual esteja vestido é sempre anónimo, está sempre impávido e sereno, mudo, ou pelo menos assim nos parece. Como tal, ou revemo-nos na sua "apresentação" ou não. E por quem foi montada essa apresentação? Faltam-me novos manequins e o frenesim da sua montagem diária, necessito mudar a minha representação, reavivar as minhas memórias, construir nova vida e adquirir novas memórias. Cheiros, toques, sons, apaziguamentos, zangas, disputas, beijos, abraços, lágrimas, tudo, tudo aquilo que depende de mim, tudo aquilo que depende do manequim. E o novo, o que é novo? Tudo, pode ser tudo, até mesmo uma recuperação do velho.

Aqui ou noutro lado, as sensações são iguais, apenas muda o isolamento, de escolhido para imposto. Casam mal duas ilhas, por isso são isso mesmo, ilhas, infundíveis, e no limite constituem-se, exogenamente definidas como tal, em arquipélagos.

Cada vez me convenço que não poderia ter dado melhor nome a esta ilha, um ilha chamada Eu e sinto que está na hora de partir, pois a salvação vista como sobrevivência deixou de ser suficiente. Naquilo que do tempo é meu, há que tomá-lo em mãos, a espera anuncia o seu fim e de qualquer  modo de naufrago não passarei, pois que é uma possibilidade bem forte para qualquer navegador que se preste à aventura. Mãos à obra, vou regressar.

 
Teu,
ML»


Ao senhor José Lello e aos seus comentários no Facebook


Pointing Fingers

Toda e qualquer observação de PS e companhia mais esquerda são indignas de registo. Não se culpe a direita por fazer o que fez ou o que sempre fez, pois trata-se da direita e é como é. Acuse-se sim a esquerda de nunca ter sido o que deveria ser, e de nunca ter feito o que deveria. Institucionalizaram-se, corromperam-se e viveram da glória de uma revolução falhada. Mas a culpa é de todos nós, que infelizmente ficamos pelo direito à palavra e ao voto. Hoje na rua apanha-se e no parlamento ou em qualquer debate cumprem-se ordens externas e discute-se o sexo dos anjos, recorrendo a um palavreado teórico, irreal, ou melhor surreal, amadurecido por anos de filiação em "Jotas" e companhia limitada, tumores da democracia, filhas do estado novo. Não temos políticos, pois na sua maioria são comerciais, que essencialmente se vendem a si próprios.

quinta-feira, julho 07, 2011

CDS – Créditos Desenhados por Safados, para ser simpático. Comentário à intervenção de José Gomes Ferreira



Finalmente, alguém com tomates e que coloca o dedo em duas grandes feridas; 1ª, a politiquice de segunda feita pela UE, personificada pela personagem DBarroso – Maoista Neoliberal J J; segundo, a questão dos Credit Default Swaps (CDS) que engordaram directores e responsáveis de reservas federais, mas fizeram cair o LB e fizeram com que se gastasse uma fortuna para salvar a AIG. É uma artimanha relativamente simples, emprestas a 115%, seguras a 230%, mas tens de segurar quem segura a 230% e isso é feito com dinheiro dos contribuintes – BPN avant la lettre. De seguida, cotas o produto, já CDS, como GOLD por oposição a TRASH e vendes gato por lebre, pois de facto é trash, phantom. Tens dinheiro virtual sobre dívida real. É isto que as fantásticas agências, responsáveis por 2008, responsáveis pela monstruosa divida americana, a que já nem a táctica (aplicada por Keynes nos 50´s e 60´s através de aumentos de produção e salários para cobrir a produção) de injectar papel-moeda pode valer, querem fazer à periferia europeia. Agora questiono: Que europa queremos ou querem os nossos líderes? Obama não teve coragem de castigar os biltres de 2008 e ainda convidou alguns para a sua administração, agora a europa não pode cometer o mesmo erro. Há que erradicar a importância que estes parasitas têm. Só pode haver luvas e precisamos de um “watergate” no seio da UE. Bons jornalistas precisam-se. Outro ponto: Senhor DBarroso, fique bem longe de Portugal, pois faz cá uma falta como a fome.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

E não, nem todo o povo quer comprar um carro novo.

Anónimo, Por onde para o Povo

As propostas da CIP, a apresentar em "CPCS", imediatamente a seguir à fantochada das eleições para "pseudo PR", são legítimas face ao principio e ao propósito e em virtude do pais que temos. Com o valor de 1 indemnização por despedimento, 45 dias, passam a despedir-se 3, 15 dias! A postura da CGTP é a costumeira, não vou analisar, a da UGT, também, mas esta, uma verdadeira palhaçada, pois diz não com a ressalva de ser “assunto a rever”, as in, vai recusando, faz teatro, negoceia contrapartidas, como os lordes negociavam terrenos na idade média, e assina no fim.

Acho incrível que não se paguem avaliações de desempenho, não se melhorem redes, parques informáticos, etc., essenciais para a produtividade, e que se centrem as atenções nos LARGOS VENCIMENTOS pagos em Portugal. Enquanto isto a precariedade aumenta, e isto com salários inferiores a 500 euros.

Apetece-me ser com uma qualquer personagem de Llosa, por exemplo, o guarda Lituma e escrever, à boa maneira sul-americana, “grandessíssimos filhos de uma puta.” Só espero é que não se assista também a um desfecho à boa maneira sul-americana, que é o de alguém aparecer com um “tiro nos cornos”, pois não se “querem violências” no corpus social, onde o estado, democrático, deve ser o aglutinador e gestor da força, da violência e da ordem. E está a sê-lo, o aglutinador da violência económica e financeira, que silenciosamente e sem vitimas nas ruas, nos aprisiona e “mata todos os dias”; mata-nos o ânimo, mata-nos a vontade, a confiança, o casamento, a paciência de pai e de filho, a cultura, os valores, as disposições. E não, nem todo o povo quer comprar um carro novo.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Cartas de um naufrago - 8ª entrada

«Um final de tarde, a face tocada pelo vento que já adivinha o Outono e esse o Inverno. Contudo, não se façam muitas contas, pois o tempo aqui é soberano, não deve responsabilidades.

Hoje o meu companheiro de diálogo, ou monólogo, fui eu, ou sou eu, pois parece-me estranho ligar aos tempos verbais, num sítio onde não há tempo, ou onde só há tempo. Já quanto ao ser o meu companheiro de diálogo, se é um facto que com isto pareço excluir o 16, questiono-me cada mais acerca dessa possibilidade, pois sinto que está sempre aqui, à esquina do ouvido, mesmo que no mais profundo silêncio, sem se manifestar.

Era então assim, tomando-me a mim como companheiro, que ao som do vento do final da tarde, ainda agradável, pensava na vida como um fio de água que corre por entre as mãos e que nesse correr nada é, nada deixa, mas tu inscreve, como se de um bloco de cera se tratasse.

No seguimento da última conversa que tivemos, cujo tema foi a dúvida constitutiva (eu e o XVI, ou eu e a árvore nunca sei o que escrever, nem o que faz de mim mais louco, se dizer XVI, que é árvore, ou árvore que é XVI) e da necessidade de partirmos de uma essência, essência essa que sendo uma reserva de sentido, permite a própria constituição de um sentido, criando assim a diferença fundamental entre sentido e um sentido, há algo que me deixa agora perplexo, isto é, a noção de permanência. Como ser que vive e "experiencia", que é que fica para mim, que é fica de mim, que é que fica do que faço ou do que me acontece? Qual o espaço de inscrição senão o da minha memória, redundando isso num espaço de medo, de repulsa ou então de saudade, nostalgia ou melancolia?

Tudo o que me é próprio e básico nunca me deixa e é-me natural, pois que se repete, ou seja, há uma recorrência e quase sempre a mesma se reveste dos mesmos moldes de outrora , contudo, quanto àquilo que verdadeiramente me constitui, os outros, as coisas, os tempos, encontram-se fora de mim e muito pouco se configura como um território de escolha, de pura escolha, pois é impossível uma relação exclusiva de mim a mim; há uma mediação mundana, quotidiana, como se o acto de escolher, independentemente do género, fosse invadido por uma moralidade. Como tal, pouco escolho e nada fica, ou melhor, ficam sombras, sombras de cheiros, ecos frágeis de sons outrora fortes, imagens distorcidas, diluídas de outroras aparentemente imutáveis.

A vida é assim constituída no logro de que as escolhas são minhas, quando o que se passa é que a maioria daquilo que me acontece, julgando eu que é uma escolha ou fruto de uma escolha, passa-se precisamente no modo do "acontecer-me", é-me externo e a ligação a isso é puramente emocional (física ou não) ou mesmo que seja racional, é sempre desprovida de permanência. O dia foge-me, a tensão para o vazio é uma constante, como se o sentimento de perda fosse o dominante. Aquilo que hoje é tão real lá fora, pode não passar de uma miragem amanhã, do ponto de vista do palpável, passando contudo a ocupar um espaço massivo de memória, de in-existência. Como se disséssemos a alguém "Vê, vê esta mão cheia de areia", mas essa mão ao abrir-se nada mais continha que grãos.

Neste sentido, há como que uma aberração na existência, pois ocorre uma experimentação que parte de uma essência, que é por sua vez reserva de possibilidade para a constituição de um sentido, que se pretende genuíno, tematizado, cujos eixos são "experienciais" e que, na sua maioria, desaparecem no momento da sua inscrição no espaço da história, que é em si, nada, pois que sou finito.

Quando me penso, sinto-me como que a cair num poço , aos gritos, a olhar para cima, e para os lados, a tentar agarrar as paredes com as mãos, ou a corda que pende do engenho, tudo me escapa. Estou só, tudo já passou nesta sucessão de "agoras" , tudo é logo memória de um tempo que já foi, que já nada é, já nada tem, embrenhado num estado, que sendo alegre , triste ou sentido, pelo que recorda ou pelo que vive, é sempre solidão, sempre. Eu a sós comigo, sempre e isto é tanto assim, que mesmo numa nova fase, depois da tormenta ultrapassada, das lágrimas caídas, do exercício racional sobre o tema da culpa ou da desculpa, o passado teima em vir ter comigo, como um visitante sazonal, e em trazer o nada à vida, como se de um fantasma se tratasse.

16: Não podias ter escrito melhor. Partes de muito pouco, és mais o que não podes ser do que o que podes ser, precisamente por essa escolha que tanto te inquieta, mas tens a possibilidade de viver muito e bem. No limite estás sempre só, dai o dever de procurares sempre estar bem, dai o nunca deveres perder a fé. A vida, para quem a pode percepcionar, não pode ser vivida de outra forma, é uma viagem de conquistas que se tornarão em perdas, até que tu também te tornes numa perda e será essa a tua missão, o valor da perda. Tens consciência de ti , do valor da conquista e da perda, e esse é o teu dom, o teu dom e a tua maldição.

Estás aí? Claro que estás, que pergunta... E sim, estás e claro como sempre.

16:Não estou aqui para ser claro nem transparente, estou aqui para te ouvir e fazer -te crer em ti a partir daquilo que podes ser, que apenas podes ser. És só um homem, mas não o és sem o seres. O que te permite ser um homem, é a tua possibilidade de constituição como tal, a partir da tua essência, essência essa que é fonte e fruto da génese do valor, do principio, da regra, da vontade, da necessidade, da verdade e do amor. Antes de me ir embora, digo-te o seguinte. Já te ouvi dizer muitas vezes a palavra naufrago. Não penses que és naufrago só agora, que nunca o foste ou que não o voltarás a ser. O poder sê-lo faz parte da tua condição de humana de navegador, navegador solitário, pois mesmo que não te percas, é o mundo e o acontecer do mundo que se perde de ti. Pensa nisso e anuncio-te que a tua partida está próxima. Até breve.

Até breve.... sempre claro, sempre claro. Vou comer, comer, descansar e contemplar a noite que se anuncia bela.


Teu,
ML»


Na direcção do Sol Posto



Há 90 dias na direcção do sol que se põe.
Boa viagem Soldadinho.