quarta-feira, abril 07, 2010

Lisboa, a nossa Lisboa


Cais das Colunas, Eduardo Neves

Lisboa é

Lisboa,

Lisboa é Alfama, é a Mouraria, é O Bairro Alto, são as senhoras de idade a pendurarem a roupa nas varandas já gastas pelo tempo enquanto discutem preços e maridos, maridos idos ao trabalho ou já idos da vida, mas que contudo persistem nos horizontes da memória.

Lisboa,

Lisboa é a Graça, O Carmo, O chiado, os miradouros de onde se vislumbra o Tejo e a Baixa, baixa por onde passeiam turistas e pessoas anónimas de diferentes credos e raças, com os seus cheiros e modos e que sem o saberem nos trazem o mundo. Trazem o mundo a Lisboa.

Lisboa,

Lisboa é o Restelo, a Ajuda, a 25 de Abril, o Oriente e o Parque das Nações, onde se corre e se fazem os passeios domingueiros ou de final de dia, com cães ou crianças, a sós ou acompanhados, namorados, casados, apaixonados ou enamorados, amores perdidos, amores achados, vividos ou apenas desejados, de qualquer uma das formas, com o amor pela mão, seja pelo outro, por si, ou pela vida.

Lisboa,

Lisboa é o cheiro a alcatrão quente nas filas de trânsito, a maresia no Cais do Sodré, a mercado no Livramento ou em Arroios. São os pedintes, os pintores, os transeuntes, os vendedores à socapa, a Luz e Alvalade, o Restelo e a tapadinha. Lisboa é o povo.

Lisboa,

Lisboa é Santos, Lisboa é a Avenida da Liberdade, o Parque Eduardo Sétimo, a Bica e o Adamastor. Lisboa é vida, é história, Lisboa é passado, presente e futuro. A ela chegamos, dela partiremos, nela crescemos. Lisboa é vida, é a nossa vida, a vida de quem por cá passou e deixou de ser o mesmo.

Lisboa,

Lisboa são os prédios por arranjar e aqueles que já o foram.

Lisboa,

Lisboa é Monsanto, o verde de mar ao fundo, é esta também a sua roupa, verde de mar ao fundo.

Lisboa,

Lisboa é a agitação dos dias que contrasta com a calma do Tejo nos dias de verão na sua eterna caminhada para o mar, onde todos os rios terminam, mas onde nenhum acaba.

Lisboa,

Lisboa és tu, é de ti a sua cor e o seu cheiro, é por ti que emerge do anonimato do pensamento que não pensa, do olho que não vê, do nariz que não cheira. Lisboa desperta e repousa contigo, agita-se na sua azáfama diária quando estás, fica dormente quanto partes.

Lisboa,

Lisboa és tu, nos passeios dados pelas ruas e avenidas, onde nada escapa, onde tudo escapa, onde o tempo não para de correr tal como o rio. Todos os tempos terminam, mas nenhum acaba.

Lisboa,

Lisboa és tu inscrita nos horizontes da memória, um dia relatada pela boca cujas mãos estenderão a roupa à janela e falarão do marido ido, ido ou já ido.

Lisboa,

Lisboa és tu, nas calçadas pisadas, nos lábios beijados, nas promessas feitas, na vida a par e passo construída.

Lisboa,

Lisboa és tu, um coração de pedra, água, vento, sons, barulhos e cheiros, que bate ao ritmo do dia-a-dia, que o é e bate porque tu estás.

Lisboa,

Lisboa és tu, quando te diz olá ao primeiro raio de sol que bate na janela, ou boa noite no apagar das velas.

Lisboa,

Lisboa és tu e agradece-te.

sexta-feira, março 19, 2010

O Estorninho e o Amor


Uma tarde de sol, na maior azáfama na floresta. Versa esta história sobre um Estorninho macho, que observava do alto do seu ramo e pensava para consigo...

"Sou um lobo solitário, é isso mesmo, sou um lobo solitário", pensava para com os seus botões o Estorninho, enquanto lavava a sua bela plumagem cinzenta e observava a azáfama dos demais, ajeitando os respectivos ninhos. É claro que estamos perante a um Estorninho com grandes problemas de identidade, assim parece, mas o que se passava é que o Estorninho em questão queria o amor verdadeiro, eterno, para lá da duração da estação da paixão. "Contrarias assim a tua essência", dizia-lhe a cigarra Sol Sustenido, assim apelidada pelo mocho, pois sempre que tentava dar a famigerada nota, falhava no abanar de patas. "És demasiado exigente contigo próprio, não podes ser assim" dizia-lhe a cigarra, aquando das suas intermináveis conversas que se estendiam noite dentro. Mais um final de tarde chegava e o Estorninho, regressado do rio, de plumagem limpa e arrumada, coloca-se no seu ramo e pensa " Sou um lobo solitário". Era mais um fim de tarde, como tantos outros, de sol radiante, vermelho, anunciando já o final da Primavera e o princípio do Verão. Num bando de estorninhos acabados de chegar, eis que a nossa ave vislumbra uma estorninho. Então, estica o seu pescoço e observa, mas rapidamente recua, voltando à sua costumeira calmaria, não conseguindo contudo disfarçar a prisão do olhar, aquele olhar que não engana, que foi tomado por um sentimento impossível de fugir ou de ignorar. "Eu conheço esse olhar", exclama Sol Sustenido, "Eu conheço esse olhar.....", volta a dizê-lo, abanando as suas patas e emitindo aquele som que rapidamente identificamos e gostamos de ouvir quando passeamos pelos campos ou nos deitamos a gozar o sol abraçados pela suavidade natural da seara. "Cala-te, não quero ouvir isso, sabes que não posso, não quero e não posso", mas o vislumbre daquela estorninho não mais saiu da sua cabeça e rapidamente começou a conquistar aquele coração, que para o amor queria-se de pedra.
Os dias foram passando, no seu passo cadenciado, sem nada de muito novo, sem nada de muito velho e o verão finalmente chegou. O estorninho, durante o dia, ia observando a sua estorninho, sem fazer o que quer que fosse. À noite, passeava de ramo em ramo com a cigarra, conversando sobre tudo e sobre nada. Numa dessas noites, por sinal extremamente quente, enquanto conversavam, o Estorninho e a Cigarra, junto ao ninho do mocho, eis que passa a estorninho, a esvoaçar, calmamente, aproveitando as correntes quentes para planar. Imediatamente, como que toldado por uma qualquer manifestação de beleza natural, daquelas que paralisam o comum dos mortais e quase o cegam, o nosso estorninho perde o pio, ficando impávido e sereno a olhar para aquela ave que esvoaçava elegante à sua frente, saltitando de ramo em ramo, com aquela graça digna dos deuses e dos predestinados. Nisto, a estorninho faz uma volta no ar e aproxima-se "Olá, eu sou a Piluça,e sou uma estorninho" e larga-se num sorrir desenfreado, que é como quem diz, piar de um certo modo específico que na tradução de "piez" para "humanez" equivale a sorrir. " Vocês, quem são?" A cigarra, na sua natural musicalidade, logo respondeu " Sol Sustenido é o meu nome, mas diz-me, Piluça, que raio de nome é esse?" E, novamente, soltando-se num riso desenfreado, a estorninho responde, "Peluche que é um urso, Piluça, pois sou fêmea" e novo riso desenfreado. Entretanto, ambos viram o seu olhar para cima e observam o Estorninho impávido e sereno e a Piluça comenta baixinho "Quem é este quem nem olá disse?" "É o Lírico, baptizei-o eu", "Lírico, muito bem, mas o que ele é, é arrogante, ali de pescoço para o ar, sem nada dizer."
"Não falas tu", questiona a Piluça, entre um bater de asas e esticar o pescoço. "Olá, desculpa, não reparei que tinhas chegado e, como a cigarra falou, optei por aguardar. Sou o Lírico" responde o estorninho, entre um sacudir de corpo e inchar de peito, que nada tinha de vaidade ou arrogância, mas antes de auto-defesa, pois mal sabia a Piluça o que lhe já ia na alma. Mas ele não podia, não podia. Sem adivinhar tal coisa, Piluça volta a sussurar com a cigarra " Que arrogante!, minha nossa, que paciência, deve ter o rei na barriga" ao que o Sol Sustenido responde "Não tem não, é aliás muito divertido, apenas não te conhece, olha, repara quem vem lá, a raposa Lezíria. Rapara como a cumprimenta!" .Lírico, observando Lezíria que se aproxima, salta do seu ramo aterrando directamente no seu dorso: "Olá minha amiga, que tal vai isso, há muito que não se deixava ver" ao que a raposa responde "Há muito?! Paspalhão! Ainda ontem estivemos de conversa até às tantas... mau mau maria, que te apoquenta, já te conheço. Vá, desembucha". "Irra, dormiste mal ou caiu-te mal a galinha do almoço?! Disfarça minha atrevida desbocada, não reparaste quem nos olha?". Curiosa, a raposa Lezíria, olha para cima e para o lado e exclama "A cigarra eu reconheço, os olhares do costume, mas quem é aquela, que não pára de rir?" Depois de dizer isto, olha de novo para o Lírico, que se encontrava completamente embevecido a olhar para a estorninho. O seu olhar era o de um perdido, completamente perdido e tomado pelo dia. "Olha, olha, passarinho na gaiola, está bonito está.. Acorda pardalinho, quem é aquela?" Estorninho, o Lírico, recupera-se, julga ele, pois que nada escapava à raposa e diz "Não sei, diz que se chama Piluça, já viste que nome, Piluça, isso lá é nome de gente...", "Não é gente, felizmente, é uma ave e entre nós, essas convenções dos nomes não existem. Só a beleza e o sonho valem e e não disfarces que a mim não me consegues esconder nada". Dito isto, empinando o pescoço para cima diz "olá, disseram-me aqui à orelha que te chamas Piluça", "sim, chamo", respondeu a piluça entre mais um par de sorrisos. Ouvindo a conversa, a cigarra, voltando-se para a estorninho diz "vês, vês como é simpático?". Não se mostrando convencida, a estorninho contesta " Não me convence, é arrogante e antipático", mas tal como o Lírico, não conseguiu disfarçar o impulso que a levava a não arredar pé dali, apesar do avançar das horas. Algo a prendia, sem dúvida alguma.
Passada esta azáfama inicial, característica dos grupos onde alguém de novo chega, os dias retomaram o seu curso e Lírico, Sol Sustenido e Lezíria, os companheiros do costume, voltam aos passeios de fim de tarde e noite. Ainda assim, a cadência normal era aqui e ali alterada pela visita de Piluça, com o seu sorriso incessante e ar saltitão.
Certa tarde, andava o nosso Lírico embrulhado nos seus pensamentos, quando ouve um chamamento "Olá, está bom o senhor?", visivelmente espantado, vira-se para trás e num ramo ligeiramente acima do seu, estava Piluça, pousada com um sorriso maior que o próprio bico. "Podes tratar-me por tu", respondeu. E pronto, a partir desse dia passaram a dar, a espaços, de forma muito recatada, longos passeios rente ao riacho e pelos ramos das árvores frondosas que se estendiam a perder de vista. "Pequenos eram os olhos para absorver tão grande mundo, mas uma alma enorme está por trás dos mesmos" pensava para consigo Lírico cada vez mais absorvido por aquele olhar vivo e por aquela graça, que parecia irradiar daquele ser que lhe havia prendido o olhar deste o primeiro instante e que contagiava tudo à sua volta. E lá correram os dias. A espaços, a cigarra, dizia " Não fujas ao que está à vista de toda a gente" sendo que a raposa, aparentemente descarada e desbocada, revelava-se mais prudente e raramente adiantava o que quer que fosse face ao enredo que subtilmente se desenhava ao sabor da velocidade dos dias. Ainda que sobre a mesma história, esses tinham velocidades diferentes para cada um dos envolvidos. Para o par de estorninhos, as horas pareciam-lhes curtas, demasiadamente curtas, mas aos restantes, perfeitamente normais. Eis que numa noite de verão, Lírico, canta para Piluça e declara-se de forma séria e convicta, aquela forma de quem sabe o que quer e como quer, longe do instinto e da frugalidade, de forma romântica e apaixonada. A princípio, o encantamento parece ser correspondido. Porém, chegado o meio da estação, o resultado não é o esperado, piluça retrai-se "Não estou preparada, o mundo é enorme; fiquemos amigos" e parte para junto da família. As lágrimas caem pelas plumas de Lírico, enquanto pia à lua incessantemente. Cá de baixo, tal como lá de cima, há quem observe (mistérios da existência) e a prudente Lezíria, não abordando o assunto, (sim porque é um erro catalogar a raposa de metediça. É antes atenta só se mete com a segurança de quem ataca a presa na hora certa) incentiva-o e acompanha-o, sempre. E corre a estação, Lezíria a companheira, Sol Sustenido o companheiro.
Aproxima-se o final do verão e os bandos de estorninhos começam a regressar ao pasto de Lírico, Sustenido e Lezíria e eis que num dia regressa Piluça, alegre e saltitante como sempre, cumprimentando-os de imediato e demonstrando alguma reserva e distância para com Lírico. "Como te sentes" questiona a cigarra, "bem, muito bem" responde Lírico disfarçando para meio mundo a amargura que lhe corria no peito, até pelo comportamento de Piluça para com ele. Já Lezíria, não fugindo ao seu ser próprio, reserva-se, observa e acompanha, sempre, como é seu apanágio. Os dias correm à sua velocidade normal. Sim, agora as velocidades eram todas iguais, não significando isto monotonia, muito pelo contrário, pois aos três amigos, havia um rol de animais que se lhes juntava em companhia e faziam, a espaços, uma festa no sítio mais alto do pasto, a que Piluça não chegava a horas ou pura e simplesmente não ia. Lírico mantinha-se firme, firme por fora, dilacerado por dentro. Era contudo uma ave forte e bem acompanhada.
E os dias foram correndo e com eles o tecer da vida. A alegria e a paz pareciam ter voltado àquele grupo, atarefado em realizar um festival de outono, onde alguns participaríam mas todos seriam convidados a assistir e, claro está, ao repasto que lhe seguiria. Piluça parecia regressar ao grupo, mas sempre com avanços e recuos, notando contudo que a atenção de Lírico já não era a mesma e não podia mesmo ser, pois o coração de uma ave é frágil e magoa-se com muita facilidade, se bem que esta fosse "de boa cepa, mas não de ferro" como lhe costumava dizer a amiga Lezíria, fiel companheira. Já Sol Sustenido, desconhecedor da dor que lhe cortava o peito, admirava a sua altivez e independência, bem como a sua capacidade de resistência, perguntando-lhe repetidas vezes "Como é que consegues? Gostava de ser assim, apesar de continuar a achar que te negas e castigas em demasia". Apesar disso, era clara a desconfiança em tamanha força.
Volvido algum tempo, numa dessas noites de folia, no sítio mais alto do pasto, Lírico, embalado pelos festejos em torno do aniversário da fiel companheira e pelos olhares e permissões do seu amor, embora de forma sempre subtil, baixa a sua guarda e canta a plenos pulmões o seu amor em forma de serenatas, acompanhado pela melodia de Sol Sustenido. Contrariando todos os anseios, esse amor, não só não foi correspondido como foi questionado: "Amor, como pode ser amor?". Foi o golpe fatal! Lírico sentiu-se atingido no seu coração e na sua alma. Por entre a confusão e sem que ninguém perceba, volta-se para Piluça e diz-lhe "Achas mesmo que não é amor, pões em causa o meu sentir e a minha razão? Não te preocupes em responder pois esta dor termina hoje. Tens daqui até ao momento em que eu pousar no meu ramo para pensares no que queres para a tua vida. A partir desse momento, aceito-te para sempre só como amiga e sem voltar atrás." Tremeu ao pronunciar tais palavras e questionou a sua própria decisão, mas foi ganhando força ao ver que Piluça, a forte piluça desfalecia a cada sílaba, abrindo o seu bico enquanto ficava estupefacta com o que ouvia.
E a noite correu e terminou. Quando se preparava para dormir, Lírico ouve um ruído à porta do seu ninho. Pensa duas vezes, não resiste e saí. Era piluça, iluminada pelo Lua, pela lua e pela graça que caracterizava a sua beleza e forma de ser. Nisto, coloca a sua asa por cima da de Lírico que a estende quase sem resistência e diz " Tens de ter paciência, preciso de tempo, mas é de ti que gosto. Tem calma e dorme descansado. Falaremos com calma com o raiar do sol, o renovar do dia." Lírico, baixa a cabeça, pensa e repensa, no que resultou um momento suspenso, de reflexão. De seguida, levanta a cabeça e responde "Sim, claro, conheço-te desde sempre. Ainda antes de te conhecer, já te conhecia e não tenho como dizer que não".
E assim termina, ou melhor, se inicia a história de amor entre Lírico e Piluça, um casal de estorninhos, que se encontrou num pasto banhado por um riacho.
Consta que, ainda hoje, se tratam por queridos, mesmo quando discutem,e dormem asa com asa, no conforto do ninho que é o deles.


terça-feira, março 16, 2010

Cartas de um naufrago - 6ª entrada

Segue a 6ª entrada do diário

Na primeira entrada, ou carta, foi referido que não seriam feitas considerações sobre ou alterações na estrutura do texto. Contudo, face à peculiaridade desta carta, foi necessário fazer uma chamada de atenção para a mudança de registo, pontual, de relato para diálogo. A degradação da carta impede um esclarecimento mais profundo.

«Final de tarde, um dia qualquer desta metamorfose temporal que sou eu e o mundo [....]. O tempo está agradável, dir-se-ia um final de tarde de verão, mas na ausência de convenção, é apenas um final de tarde agradável. Cá estou eu, desta vez não no areal, perscrutando o horizonte, mas antes no topo de um penhasco, a vislumbrar uma das enseadas desta ilha, enseada essa que se assemelha aqueles sítios onde os afluentes dos rios terminam, ou fazem uma curva, deixando uma espécie de praia. A vista é fabulosa, inebriante mesmo. O azul do mar, o areal, povoado de pedras pequenas e grandes, com o verde da mata por trás [...]cujas árvores à distância, aquela distância que ao homem permite a ilusão por defeito de condição, parecem dispostas em fila de forma extremamente organizada [...] é-me profundamente familiar, tornando este sítio ainda mais belo! Como já disse e penso, como é possível um sítio tão distante me parecer tão próximo?

Vou agora relatar um episódio que me aconteceu há alguns dias atrás. Alguns dias, penso eu que foram alguns dias, não sei, perco o fio à meada com muita facilidade, pois não tenho como me regular, senão pela fome ou pelo cansaço. Puro instinto na condução da existência, ou sobrevivência, e tanto tempo para a reflexão, para o uso da razão. Interrogo-me agora, ainda mais, como seria a vida de um animal, um leão, um cão, por hipótese, se tivesse razão?

Relativamente ao episódio, como havia relatado, nos meus passeios pela ilha encontrei uma escultura de madeira, pelo menos identifico-a como tal. Estava eu sentado no areal, a mirar o horizonte, quando decidi ir ter com a escultura de madeira. Uma vez frente à mesma, acabei por de lhe dar um nome, "16, serás o 16, faço-o em memória do meu avô, que atribuía números a tudo. Nunca soube o porquê, mas para além do seu feitio peculiar, atribuo o facto ao não saber ler nem escrever"!

Quando me preparava para voltar, aquela coisa aparentemente inane disse-me "Olá". Esbocei um sorriso, atribui o facto ao desespero da solidão e segui caminho. De repente ouvi chamar, e há quanto tempo não ouvia ninguém chamar-me. Parei e voltei atrás. De repente perguntou o meu nome ao que respondi "não sei, já não sei, pois que o que me tornei não sou eu, e estou na viagem de regresso, como tal não sei o que te responder" e dei por mim a falar com/para uma árvore, com o 16, uma árvore que era escultura de madeira, escultura que eu nem sabia muito bem se era, árvore que já não era. [...]! (Aqui o relato passa à diálogo, como se de uma transcrição da conversa se tratasse. o hiato é impossível de decifrar, dai esta intromissão)

"[...] Mas tu falas, perguntei eu, muito espantado?
16: Sim, falo.
Estou louco, o sol, o sal do mar, a erosão da solidão deixaram-me louco. Impossível, és um pedaço de madeira.
16: Chama-me o que quiseres, mas eu falo, e penso e vejo e sinto. Aproveita, já não estás só.
Sim, mas não andas pelo menos.
16: Não preciso, estou em todo o lado. Para todo e qualquer lado que vás, estarei lá, sempre que queiras, no espaço desta tua ilha.
Nem sei que te diga.
16: Mas diz-me, fala comigo, como vieste aqui parar? Há quanto tempo aqui estás?
Não sei pormenores, apenas que foi um naufrágio, quanto ao tempo, não sei dizer.
16: Há muito tempo que andas naufragado...
Que dizes? Que sabes tu?
16: Nada, apenas te julguei pelo aspecto, pelo lamento expresso pelo tom de voz, que estranhamente não se coaduna com o ânimo demonstrado. Dir-se-ia que estás suspenso.
Estranho, muito estranho, deixas-me estupefacto, o pouco que vês, o muito que sentes e sabes.
16: Sou assim, olho-te nos olhos e vejo uma luta enorme, um questionamento constante sobre o estar aqui, não aqui nesta ilha, mas o estar aqui no mundo. Acertei?
Sim, acertaste. Descurei-me de mim, tão pouco liguei ao muito que agora quero e vejo como próprio. Tanto liguei ao que agora repudio com todas as forças e que quase me destruiu. Permiti que a bruma do fácil envolvesse o que era tão claro, tão natural, como se fugisse de mim, tornando o que me era próximo distante.
16: O reconhecimento de si é um primeiro passo para a constituição e penso que estás no bom caminho. Vamos fazer um acordo.
Diz-me
16: Serei o teu companheiro, juntos pela força do diálogo, questionaremos o modo de estar, na tentativa de constituição de um modo de ser. Mas fiquemos por aqui hoje, estás cansado, sinto-o. Vai, repousa, e regressa a mim quando entenderes, mas não esqueças que estarei sempre contigo, assim o queiras."

(volta a dar-se um retorno ao relato)

Acordei, estava na praia, deitado ao sol, cansado de facto. Terei sonhado, pensei para comigo? Voltarei lá em breve, mas não, não pode ser, uma árvore que fala. Será a minha consciência? Estarei louco. Voltarei lá em breve.

E pronto, foi isto que me aconteceu há alguns dias atrás e ainda não voltei ao 16. Contudo sinto-o ao meu lado, estranho! De facto, decidir para mim ter uma consciência, um amigo, é uma coisa, decidir essa coisa não ser uma coisa, mas antes um ser e tornar-se ela a consciência, é algo completamente diferente. Sinto-me calmo contudo, estranhamente calmo.
Uma coisa é certa, nesta solidão, nesta luta contra a vontade de desistir, ganhei novo ânimo, novo fôlego para me manter na luta, não só pela minha sobrevivência, mas também, e acima de tudo, pela minha existência, pelo busca do meu fundamento. Tenho de lá voltar, afinal já não estou só.

A partir deste momento, tudo para mim é uma enorme questão, tudo para mim sou eu e a minha constituição, o esclarecimento de mim. Estou assim nesta ilha chamada Eu e tornei-me para mim um grande mistério. Tenho de lá voltar.

Fico por aqui hoje, o dia já cai.


Teu,

ML»





domingo, fevereiro 28, 2010

Cartas de um Naufrago - 5ª entrada

Boa noite,

Desde já as minhas humildes desculpas pelas demoras nas publicações das Cartas de um Naufrago, mas as folhas estão de facto muito degradadas, pelo que exigem que os trabalhos de leitura, que são também de recuperação, decorram a um ritmo muito lento, fruto do cuidado exigido. Muito obrigado.

Segue a 5ª entrada do diário

«Algures no meio do nada, pelo final da tarde, mas cada vez mais de regresso a mim,

Os dias correm na sua velocidade normal, sem nada de novo, nem nada de muito velho, pois é assim o tempo, não tem tempo, pois que o é na sua totalidade. Tomaríamos nós podermos ser como ele. Nesta passagem dos dias, vou-me remetendo cada vez mais às memórias, ao feito, ao vivido, pois que o que me rodeia, neste meu isolamento, não havendo interacção não pode produzir uma construção, futuro, continuidade. Essa agora cabe-me a mim, neste monólogo, até aguentar ou até partir, seja daqui, seja ficando aqui e partindo para uma outra realidade. Resistir ou partir, enfim, a nossa condição.

Ultimamente, de cada vez que deambulo pelos caminhos da memória, a ideia de liberdade não me sai da minha cabeça. Antes desta tempestade que me arrastou para este local, só a ideia de perder a "minha liberdade" assustava-me, sendo que cheguei a recear que a mesma se tornasse um vício. Mas que é enfim a liberdade? Pergunto-me isto, porque nesta minha condição não estando preso a nada que não a mim, sinto-me o mais apertado dos prisioneiros. Sim, posso fazer tudo o que me apetece, mas para onde me conduz isso? Posso gritar, escrever na temporalidade da areia, que dura o espaço de um ir e vir da ondulação, o que me apetecer, mas onde me conduz isso? Quem me apoia, quem me reconhece, quem me critica, quem me abraça, quem me protege, com quem choro, com quem riu? Estou absolutamente livre, estou absolutamente refém, refém daquilo que temos de mais fraco, a nossa pura "perantidade "nós próprios, o estar aqui, a sós connosco, onde já nem Deus nos vale, pois que o meu coração, onde ele reside, ficou mudo.

Não posso crescer, não posso ser repreendido, encaminhado, aconselhado, refreado., impulsionado. Sou como um cavalo à solta, mas ao contrário do cavalo cujo instinto o leva a correr e a sobreviver, o meu ser racional precisa de mais, precisa de ti, precisa de mim, precisa de nós, para viver, pois que sou mais que o domínio do próprio. Sim, descobri, sou mais livre estando num sistema e todo o trabalho do humano deve ser sobre o sistema e nunca sobre a inexistência do mesmo. Vejo-me assim perdido e encontrado numa ilha chamada Eu, sim é o melhor nome que lhe posso dar.

Preciso de um amigo, o monstro precisa de um amigo, precisa de uma consciência externa, pois o coração está mudo.

Nestes meus passeios pela ilha na qual me encontro, percorrendo os caminhos outrora percorridos por alguém, descobri uma espécie de escultura em madeira. Podem ser os meus olhos a iludir-me e não passar apenas de uma árvore rasgada por um raio, ou por outro acontecimento natural qualquer, mas para mim é uma escultura e será doravante o meu amigo e conselheiro. Arranjei umas ervas secas e coloquei-as no topo da "escultura", dando-lhe o aspecto de possuir uma farta cabeleira loura. Engraçado, a voz da minha consciência espelhada por uma cabeleira loura. Um pouco de humor nesta lassidão.

O sol põe-se no horizonte, não se vislumbra nada, não corre uma aragem que seja. O céu está de um azul maravilhoso que emparelha na perfeição com o mar. A ondulação abraça suavemente as margens da praia onde me encontro sentado, a mordiscar uma peça de fruta. Estou só e quero ser livre, e para tal preciso de mim. Quero sobreviver para poder viver. Vou erguer-me e renascer, para poder ser livre, partir daqui para chegar a ti, meu porto, de braço dado comigo.

[...]

ML»



terça-feira, setembro 22, 2009

Guerras





Um diálogo entre o general Vida e o soldado 1/2 dia, seu chauffeur:

1/2 d: Bom dia meu General?
Vida: Bom dia 1/2 dia, que tal vai isso?
1/2 d: Vai tudo, vai tudo, muito obrigado e consigo?
Vida: Comigo!! Bom, se me perguntas se estou bem, estou, mas quanto ao ir tudo.... isso já não sei. Já foi muito, isso sim.
1/2 d: Não diga isso, o senhor é de aço, está aí para mais vinte guerras, também com a experiência que tem.
Vida: Está bem...
1/2 d: Sabe, agora que o referiu, estive a ver um programa sobre guerras, sobre situações de guerra melhor dizendo, o que ensinaram, o que tiraram, o que deram...
Vida: O que deram!?? Essa agora... bom, continua
1/2 d: Sim, está bem. Como eu estava a dizer, sobre guerra, situações de guerra. Como tal, lembrei-me de falar consigo sobre isso, uma vez que tem muita experiência.
Vida: Sim, tenho muita, infelizmente.
1/2 d: Infelizmente!??
Vida: Sim, infelizmente, porque o emprego da guerra é muito desagradável, no sentido de que só é bom quando estamos desempregados....
1/2 d: Não percebi..
Vida: Tolo, jovem e tolo... a guerra só é boa quando acaba, quando tudo se resolve, se bem que para muitos, talvez para a maioria, ela começa verdadeiramente quando acaba. Contudo, no sentido do interesse geral, as guerras são boas no momento em que acabam, quando tudo se resolve.
1/2 d: Mas todas!?
Vida: Sim, todas. Umas acabam pior, outras melhor, mas são todas boas assim que acabam. Aliás o melhor das guerras é o período que as medeia. Esse sim, é precioso e sabes porquê? Porque pode evitá-las.
1/2 d: Não sei se percebo mas, já agora diga-me general, qual a melhor guerra na qual participou?
Vida: Todas aquelas que já acabaram, umas bem, outras mal.
1/2 d: E a pior?
Vida: Pois, a pior, a pior é aquela que ainda não começou.
1/2 d: Acho que voltei a não perceber...
Vida: É normal, és jovem e tolo e tens de viver, tens de combater as tuas guerras. Vá, agora conduz, preciso de ir, temos uma guerra para combater.
1/2 d: Temos!!? temos onde? Mas o senhor não está desmobilizado?
Vida: Eu, nunca. Então não estou aqui, a falar contigo?
1/2 vida: Já não percebo nada...
Vida: Pois não, és jovem e tolo com muitas guerras para combater.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Cartas de um Naufrago - 4ª entrada

Segue a quarta entrada do diário



«É manhã, isso é certo [...]

Estou sentado à beira de água a olhar para o horizonte. Tenho um pequeno resto de ramo na mão e rabisco o meu nome. A suave ondulação teima em apagá-lo. O dia está calmo, aliás os últimos dias têm sido de uma calma podre, se bem que nem sempre acompanhados pela paz de espírito tão desejada, mas esse é também o problema do desejo, o andar de braço dado com a ânsia, com a impaciência, acabando por nos perturbar. Contudo, pode dizer-se que a paz tem existido na maior parte do tempo. Sou como uma escarpa, de dia acariciada pelo doce e suave bater das ondas, e à noite, a espaços, fustigada por vagas, ainda, com alguma força.
Desde que ganhei forças para sair do torpor em que me encontrava da última vez em que te escrevi, dediquei-me a explorar a ilha na qual me encontro e por muito estranho que pareça, sinto-me como se sempre a tivesse conhecido, como se tudo isto me fosse familiar. Então, a oeste temos arribas e praias, quase sempre sacudidas pelo vento. Na maré baixa é maravilhoso, pois a maré desce a tal ponto, que a praia fica enorme e vêem-se as rochas outrora submersas pela maré alta. Podem apanhar-se pequenos peixes, mexilhões, caranguejos e lapas. A erosão do mar, faz com que algumas das rochas se assemelhem a pequenas banheiras e o cheiro a maresia é intenso e purificador. Ao final da tarde gosto de por lá passear e senti-lo entrar pelas narinas. Já com o chegar da noite, fica algo assustador, pois torna-se muito escuro.
A norte, a partir do interior centro, temos montes cobertos por Pinheiros, outrora frondosos, pois parece ter havido um incêndio feroz, Carvalhos e Eucaliptos. O calor é intenso durante o dia, tornando-se quase insuportável durante o meio da tarde, mas na maior parte dos dias, o frio à noite é agreste e muito seco. Espero não passar aqui o inverno, pois não sei o que farei.
Em ambos, sinais de caminhos outrora pisados, como se alguém tivesse aqui habitado durante bastante tempo. Tenho-me dedicado a percorrê-los, como se procurasse dar-lhes vida, compreender quem por aqui andou ou passou, pelos pequenos sinais e marcas, mas isso é impossível, por um lado, porque as marcas são insuficientes, por outro porque quem cá esteve ou por cá passou, já não está cá. Como tal, a única hipótese é dar-lhes nova vida, a minha vida, a minha cor, o meu sentido, tornando-os meus. Outra hipótese é percorrer outros inteiramente novos, o que neste caso corresponderia a criar novos trilhos. Tenho ocupado algumas horas dos meus dias a pensar qual será a melhor escolha e parece-me que vou misturar um pouco das duas, pois a partir de uma certa altura nas nossas vidas, já nada é absolutamente novo, no sentido que temos um passado, uma história já constituída e acredito que isso se alastra aos caminhos.
Agora que descrevi a ilha onde me encontro, e enquanto olho o horizonte, penso no quão frágeis nós somos. Este lugar, para mim imutável, sobrevivente ao tempo e que agora me serve de abrigo, mostra-me o quão na areia se inscreve a nossa existência e o quão mutável é a mesma. Eu mudo a cada hora, a cada dia, a cada mês, no máximo deixo vestígios, ao passo que estas pedras, estas árvores, estes penhascos, aos meus olhos, pouco preparados para velocidades universais, nunca mudarão. Se assim é, poderei chamá-las de minhas, teremos nós alguma coisa ou são as coisas, os tempos, os espaços que nos têm a nós?
Outras pessoas aqui estiveram, estiveram e partiram, por vontade própria, ou obrigadas, não sei, mas estiveram e partiram, de uma forma ou de outra, deixando apenas vestígios e no meio desta beleza enorme e assombrosa, essa é a nossa única hipótese, ficar ou partir, partir de uma forma ou de outra e nada mais. O espaço por nós ocupado é sempre efémero e curto e como tal, deve ser cuidadosamente examinado e escrutinado para que não se torne um espaço de escrita na areia, ainda mais que aquilo que por condição já é. Não temos nada senão a nós próprios. Essa é a melhor posse, esse é o melhor presente.
Encontro-me deste modo encerrado num espaço de reflexão, de pensamento, que é ao mesmo tempo um espaço de sobrevivência. Mas terá o ser humano outro espaço de constituição, que não o da reflexão e do pensamento? Não será essa uma tarefa para a vida? Somos como um quadro perpétuamente inacabado; mudam-se os componentes da tela, mas a essência fica lá, sempre em composição, um traço imperfeito que nem sempre pode ser emendado, uma paisagem inteira que não resiste à erosão do tempo.
Como é belo este espaço que me rodeia, tão hostil quanto acolhedor, profundamente contraditório, profundamente constituinte. No mesmo encerrado, medito sobre tudo e sobre todos, sabendo de antemão que por aí tudo mudou, é inevitável, faz parte da vida. Tenho de baptizar esta ilha, vou pensar num nome para lhe dar, pois sinto-me já intimamente ligado a ela e não quero resistir à tentação humana da apropriação que tantas vezes nos cega e nos torna desleixados. Loucos que nós somos, nunca temos nada e continuamos a dar nomes às coisas e a tê-las como nossas, quando nada mais são que fios de água a correr por entre os dedos.[...]
Por hoje termino, não cansado, mas termino. Vou agora levantar-me e percorrer mais uma vez a ilha. Sinto-me como que empurrado por uma mão invisível que me leva a querer andar e a procurar, o quê não sei, mas acredito que o bem e com ele a salvação, a salvação deste espaço que ainda que não me seja hostil, me limita.

[...]

ML»



sexta-feira, setembro 11, 2009

Curtas V - Even you Brutus


Assassinato de César, Anónimo

Há 9 anos atrás, num qualquer sítio de lazer, escutei este diálogo, entre "J" e "V" (estou farto do A e do B) que me deixou impressionado:

«V: - Olha, vou apresentar-te os meus projectos: pretendo viajar pelo mundo, fazer n workshops, provavelmente um curso no estrangeiro e aprender uma série de técnicas.
Depois de escutar tudo atentamente, sendo que por economia não identifiquei tudo o que escutei, e também, diga-se em abono da verdade, que metade não ouvi, "J", responde, em jeito de reparo.
J: - Olha, muito bem, fico muito contente, mas posso fazer-te uma pergunta?
V: - Sim, podes, todas.
J: - Segundo o que te ouvi dizer, acho que sei qual é a minha posição da tua vida.
V: - Que queres dizer com isso?
Pergunta "V", não conseguindo disfarçar o espanto face a tão estranha observação.
"J" com um sorriso, continua.
J: - Concluo, e não querendo de forma alguma limitar as tuas vontades, antes pelo contrário, tens todo o meu apoio, que eu para ti sou como o trabalho para o brasileiro.
V: - Que dizes?
empalidecendo.
E com um sorriso cândido, de quem respeita profundamente, "J" termina o seu raciocínio:
J: - Sim, estou 100 vezes atrás do último, é que nem o meu nome referiste.
"V", com um sorriso de assentimento, recheado de verdade, honestidade e coerência, responde:
V: - Sim, é verdade...
"J", levanta-se do sofá, acaricia-lhe a face, beija-a profundamente na testa e solta, enquanto que da cara de "V" já corre uma lágrima em fio:
J: - Não te vou deixar. No amor e na vida o mais fácil é desistir e eu não o vou fazer, até porque se o fizer, vou ficar contigo na mesma, só que ao longe.

Parece estranho, mas lembrei-me desta história a partir da sociedade contemporânea e da compreensão da relação ao trabalho. Assim, um primeiro apontamento prende-se com a noção de insistência e desistência. Segundo a minha perspectiva, só a segunda é voluntária, por incrível que pareça, pois que a primeira acontece mesmo quando não queremos, pois estamos longe de ser uma máquina.
Um segundo apontamento prende-se com esta forma de estar na vida que corresponde a uma completa e total desresponsabilização, na celebração do Eu na invisibilidade do outro. Tudo é usado e trocado, como quem salta de ramo em ramo, à velocidade da luz e mesmo a palavra, reflexo prioritário da nossa capacidade intelectual, impulsionador do desenvolvimento individual e geral é usada à toa. Dizendo o que se deseja, não fazendo o que se diz. Uma eterna vontade adiada, reflectida nas atitudes e nos processos. E face a isto digo: - Palavras, palavras leva-as o vento e ás vezes com a velocidade da borrasca; Viva o descartável, rapidamente reciclável e renovável.
Se a sociedade laboral contemporânea está na era da flexibilidade, porque não também o resto? Não é a sociedade Societal? Não será a lógica geral fruto das cambiantes particulares e vice-versa, obedecendo a um princípio incontornável de reflexividade? Mas e quando contarmos a nossa história, que imagem passaremos? A imagem de patetas saltitões, fábulas e fantasias operacionalizadas, que entre sms´s, emails e redes sociais virtuais, jogam ás cartas com valores e princípios expostos ao vento, já sem o escudo da boa-fé e sem qualquer pudor. Quem hoje é A, amanhã é B e tudo entre sorrisos e abraços regados com: "- Olá.... mas....? Aí sim, mas então!....?? Tudo bem, fizeste bem". Faz lembrar um jogo de futebol, muda-se a táctica, levanta-se a placa, faz-se a substituição e é a loucura.
Mas tal como no jogo de futebol, onde ás vezes a substituição é mal feita, ou os adeptos não gostam por este ou aquele motivo, invocando assim a ausência de linearidade e de lógica, pois há sempre o domínio do acaso fruto da imprevisibilidade , na vida nem tudo é mau, e existem as excepções, que nos dão lições de vida, as excepções que nos prostram, de forma positiva entenda-se, face à nossa condição e nos lembram o quão humanos (ainda) podemos ser, porque pura e simplesmente custa-lhes desistir de si. São os bons treinadores.

domingo, setembro 06, 2009

Cartas de um Naufrago - 3ª entrada

Segue a terceira entrada do diário:


«[......................] Algures, ao final da tarde, julgo eu

Minha querida,

"- Minha querida!??" Se bem me lembro, e tempo é o que me sobra para as minhas lembranças, questionei na minha última carta esta forma de me referir a ti, mas agora parece-me absurdo o tempo perdido nessa consideração, ou até mesmo devotar-lhe mais uma segundo sequer, pois num certo sentido, não tens porque deixar de sê-lo, pois, ironias à parte, é uma expressão usada quer por quem gosta de nós (ou de quem nós gostamos), quer por quem nos quer bem (ou a quem nós queremos bem). Acreditando eu que cada vez menos cabes na primeira categoria, creio contudo que nunca abandonarás a segunda. Bom e lá estou eu a cair na armadilha da crença, na armadilha desta fé inabalável na imagem ou ideia que tenho ou retenho de outrem. Contudo, não sei viver nem ser de outra forma, lamento e peço ao mundo que me desculpe, pois creio, lá está a crença outra vez, que não está e nunca estará bem sistematizado este meu pessimismo antropológico. [...]
Não te posso precisar quando cheguei à ilha, pois cheguei ao final do dia, de um dos muitos incontabilizados dias, exausto, completamente exausto. Assim que coloquei o pé em terra firme, assim que enterrei os dedos na areia quente e húmida, deixei-me cair e ficar, como que dormente, embalado num torpor típico de quem se abandona à sua sorte, ao "deus dará", única e exclusivamente preocupado em respirar, cada vez mais ciente do estado em que me encontrava, do estado em que me encontro. Agora que me começo a erguer, ainda que vergado sob o peso da minha circunstância, constato que nada mais fiz do que levantar-me quando tinha sede, ou quando tinha fome, pois bem junto à orla marítima existem umas árvores de fruto, que me foram alimentando.[...]
Estou assim, sentado de pernas cruzadas, a escrever-te estas linhas e medito sob a noção de destino. Porque estarei eu aqui encerrado? Que provação me está reservada? Melhor, estará o que quer que seja reservado a quem quer que seja? Existirá esse caminho pré-definido por um ser superior, que julga, condenando ou premiando? Existirá um "percursor sombrio" - nos dizeres do ateu francês, pai da Logique du Sens - que se constitui como um novelo de lã, paralelamente à linha da nossa vida, revelando-se a cada momento de queda no mundo, quer ela ocorra por infortúnio ou por felicidade? Não sei, não consigo responder a estas questões. A minhas conversas com Deus são sempre monólogos, os sinais são dispares. A própria noção de sinal depende das considerações acima feitas, pois há sinal quando há predefinição de um trajecto, caso contrário é um mero acontecer! Meu Deus, serei eu, ser pensante, pai da moral, da ética, da religião, da política, da sociedade, um mero acontecer, um puro e só estar aqui? Por outro lado, tendo tudo o supramencionado, serei eu uma marioneta, e se sim, de que me vale todo o meu espólio, todas as minhas capacidades? Em suma, na lógica deste status quo, de que vale a experiência e o saber?
Sempre que me enredo nestes caminhos, o meu raciocínio é sempre o mesmo. Somos o fabricante da nossa existência, somos maquinista e timoneiro, impulso e guia. Não temos controlo total é um facto, pois estamos inseridos em território alheio, não escolhido e hostil, mas temos posse da nossa razão e da nossa vontade. Mas, e Deus, onde fica Deus e o destino? Onde fica o ser a quem apelo em horas de agonia e desespero? Deus é crença, é fé, Deus é a minha mão, o meu querer, a minha razão, a minha consciência, e essa sim, é a grande julgadora do que faço e do que sofro, e só por insuficiência de condição humana, jogamos nas costas do destino o preço do erro ou a glória da ventura. Deus diz-me: "- Dou-te a razão e a vontade, dou-te o poder de agir. Como não deves fazer, recomendo, mas deixo a ti o poder de exercer a tua vontade, para que construas a tua vida, da forma que considerares mais correcta e mais justa, nunca perdendo de vista o outro."
Só eu sei o que faço, só eu me condeno, só eu me recompenso, só eu repouso tranquilo com as estrelas como tecto, só eu repouso aflito, angustiado, enredado no meu próprio fazer, a que chamo de acontecer. Se é facto que não sou eu a minha moral, também o é que sou eu a minha ética, mas que a mesma não deve nunca esquecer o diálogo moral. Verdade, honestidade, coerência, este é o meu Deus e à sombra destes devo eu edificar a minha casa.
[...]
Aceito assim esta provação, e se parte de mim não consegue sair da ideia que a mesma é infligida por castigo divino, a outra parte do meu ser aceita-a como consequência das minhas acções, tendo sido as mesmas exercício da minha vontade e do meu querer. Pena que não me oiças, tenho tanta pena, mas o tempo corre, não para de correr. Resta-me agora decifrar o porquê desse meu querer, e tempo, ah tempo, esse é o que não falta.
Estou cansado, devastadoramente cansado. Vou deixar-me ficar aqui mais um bocado, a ouvir o mar bater na areia, cadenciado como está, enquanto aprecio a lua, embora não veja ainda as estrelas. Sinto ainda o peso, o amargo peso das quatro paredes. Contudo, sinto que vou consegui-lo dentro em breve, aliás acredito mesmo que vou consegui-lo, pois que alternativa tenho eu?

Teu,

ML»



quarta-feira, setembro 02, 2009

Cartas de um Naufrago - 2ª entrada

Boa noite,

Segue a segunda entrada do diário denominado, Cartas de um Naufrago


«Algures, 2ª cart.........

Minha querida,

Será que ainda te poderei considerar como tal, é a questão que se levanta neste dia que amanheceu muito cinzento, no seguimento de como terminou o anterior. Sim, é um facto, nada mais está a ser isto que uma dura e lenta sucessão de dias, muito iguais, muito sem nada, ironicamente preenchidos de nada. Como é que o nada preenche qualquer coisa? Não ligues, divago, é do Sol, é o fruto da lassidão dos dias estendido neste bote. Quando estamos desocupados, pensamos muito e agimos pouco. Contrariamente aos gregos que pensavam para agir, nós agimos para pensar e quando acontece o contrário, é o desespero.
Escrevo-te numa pausa entre rudes e esforçadas remadas, pois tomei a decisão de remar na direcção da ilha, nem que isso me consuma, aqui parado é que não. No ser humano, mesmo a desistência corresponde a uma tomada de posição. Quer seja para parar ou para andar, temos de decidi-lo, que por si só já é acção, e como a nossa bios nunca para, desistir é também uma ilusão, pois corresponde única e exclusivamente a estar parado, sem fazer nada, e isso não. Se tiver de tombar, que tombe a procurar salvar-me, já que tu não o podes fazer.

Se o mar não me ilude, e acredito que não o esteja a fazer, acredito que dentro de algumas horas consiga finalmente pisar terra firme, mas terra firme, outra ironia, haverá notícia de terra firme? Estando nós inquietos, sem convicção, longe do nosso porto de abrigo, haverá terra firme? São para ti estas perguntas, se bem que não me consigas responder, mas são para ti. É contigo que falo quando procuro deixar-me dormir a olhar para as estrelas, é contigo que falo quando procuro perceber esta louca precipitação de eventos, mas não consigo ouvir a resposta. Estás longe, lá tão longe, cada vez mais angustiantemente longe e eu sem nada poder fazer, pois se é um facto que consigo remar até aquela ilha, também é um facto que me está vedado passar da mesma. Todo um muro de azul (ou negro??)está erguido entre nós e tudo o que me resta é isto, pedaços de nada, farrapos, lembranças, duras chagas vivas entranhadas em todo o meu ser abandonado e perdido, aqui despejadas em palavras ocas que por vezes nem de consolo ou libertação servem, antes reflectindo a agrura vivida.

Estou cansado, muito [...]sado[....].
Até breve, embora comece a questi[...] as minhas próprias palavras.

Teu, sempre

ML