sábado, agosto 08, 2009

Curtas III - Lições Tardias



Para quê acrescentar o que quer que seja a algo tão bem dito e ainda por cima, cantado.

sábado, maio 23, 2009

Curtas II - Lições de Amor


Munchkin Cards Template, Dazzled By Common Sense

Diálogo de amor num filme qualquer entre a e b, numa tarde de sábado:

a) - Então, voltaste para trás?
b) - Sim, voltei. A princípio pensei ir-me embora sem pensar duas vezes, sem olhar para trás, sequer, mas depois....
a) - Depois......!?
b) - Depois percebi que não podia, não podia, pois prefiro discutir contigo a fazer amor com qualquer outra.

Toma lá, embrulha e vai-te sentar.

segunda-feira, abril 13, 2009

Humanos - Poesia da contradição


Jackson Pollock, Galaxy

Pré,
Paleo,
Sapiens,
Evolução.
Nómadas,
Aglomerados,
Sedentário,
citadino,
súbdito,
cidadão.
Civilização,
Evolução.
Estética,
Ética,
Economia,
Posse,
Sucesso,
mais posse.....
Sobrevivência....
Pós,
Fim.

"We are all just passing through"

terça-feira, abril 07, 2009

Conta-me Como Foi


Conta-me Como Foi
acessível em https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEipecU2NHGoWBdK3lKnnPLopcfMx7cWvup2Up1Bh3uxZ_4xCkfC5_8CUyKsgHZBbpJau137tqjkw-NmfDo5SFMhqcUCcBFBucpz39EED5br17D7PX403Hyfe3tIKL61rPibLXUjtw/s1600-h/conta-me+como+foi.bmp.
07 de Abril de 2009


"Conta-me como Foi" é uma expressão que nos tranquiliza ou nos entristece, pela falta ou pela ausência para a qual remete. Do ponto de vista ontológico, contudo, representa a nossa incapacidade de reviver a vida ou de apagar certos elementos menos agradáveis. Em suma, "conta-me como foi" representa a linearidade do tempo, com todo o que isso tem de bom e de mau. "Conta-me como Foi" representa a raiz ontológica como historicista, por um lado, no sentido do que já foi, e como futurista [futurista aqui com tudo o que a expressão representa de vazio] por outro, no sentido da forma como nos havemos de constituir, neste perpétuo devir. Assim, no "conta-me como foi" temos o relato do passado para o futuro, com curtas passagens pelo presente, que servem para ouvir e para fazer planos.

No episódio do passado Domingo, 05 de Abril de 2009, na aldeia de origem da família Lopes, ocorreu um encontro com um latifundiário, fascista, com o poder da terra, que era o poder do regime. O mesmo, quando soube que o filho mais velho do Sr. Lopes, o "Toni" estava a tirar Direito disse ao Sr. Lopes: "Ainda dizem que o Salazar não fez nada pelos pobres"
A forma como foi dito, a filmagem, a classe dos intervenientes, até a mim me fizeram saltar um "filho da p......"!!!
Portugal atravessa uma situação muito difícil. Desemprego, baixas qualificações, certificações inadequadas, abandono escolar, falta de segurança, banditismo, etc. Em virtude disto, tenho ouvido muitas vezes, mesmo da boca de resistentes ao ancient régime, que o que faz falta é o Salazar.
Ontem, 06 de Abril de 2009, cruzei-me com uma das primeiras tiras da Mafaldinha, onde a mesma diz: "-Não é verdade que dantes se estava melhor. É que os que estavam pior ainda não se tinham apercebido."
Nada de mais errado na frase dos saudosistas, dos revoltados ou dos desiludidos, nada de mais certo na tira da Mafaldinha. Somos uns sortudos que assistimos a estas séries e documentários com a segurança da distância, movidos pela curiosidade historicista, ou pelo desejo intelectual.
Mas, do ponto de vista da consciência, segundo o meu ponto de vista, aquilo para o qual a série alerta, com a grande qualidade que a caracteriza [só o facto de ser a criança o narrador] é para a necessidade de uma cidadania activa, é para a compreensão do valor da democracia e da Liberdade, assim como para as exigências de acessibilidade e mobilidade social. Mostra-nos também uma geração que lutou por um ideal, por um Portugal livre e democrático, mostra-nos uma geração que ultrapassou os seus medos, o medo do ESTADO. Contudo, mostra-nos também que ainda temos muito caminho a percorrer neste nosso Portugal, pois que contarei eu, que contaremos nós aqueles que nos seguirão?

sexta-feira, março 13, 2009

Arrendamentos, sem o patrocínio do Millenium e sem "Paitrocínio"

O Logro do Lógos
Gato por Lebre, ou a sociedade contemporânea do devir negativo

Era uma vez um casal, que procurava uma casa, na nossa bela capital. Possuía alguns tostões, poucos mas honestos e quase não tinha dívidas, caso raro cá no burgo.
Comprar estava fora de hipótese. Entre as incógnitas acerca do rumo dado à quase Columbana taxa de juro pelo banco central e do desemprego, as dúvidas são muitas! Para além do mais, como se pagam até os milímetros cúbicos de tinta usada na assinatura, já para não falar nas horas de trabalho perdidas à procura da taxa mais leve (um cêntimo de diferença que seja) decidem arrendar. Depois, bom depois, mercado muito caro, casas com preços exorbitantes, senhorios que não cumprem e não são fiscalizados, enfim depois não querem que as pessoas prefiram comprar. Nisto, e recorrendo à infalível Web, eis que surge a casa dos sonhos, não, não desenganem-se, não é pela cor, pela disposição ou pelo formato, é mesmo pelo PREÇO; 400 euros, 400 euros e uma palete de garrafas de água no café da esquina. Promoção, Caridade, logro ou aflição do proprietário!!??? Mistério!!

A zona, urbana, mais ou menos arranjadinha, mas também algo votada ao abandono. A casa, bom a casa, uma surpresa, entra-se, ampla, com varanda, bela cozinha. Onde estará o logro!? Começa-se a ouvir um "chinfrim" aqui, um "corrupio" ali, a senhoria toma o primeiro comprimido. Outro "corrupio", mais uns gritos, e pimba, outro comprimido. À terceira "bagunçada", eis que a pobre senhora se desfaz em lágrimas e confessa:

- Olhe, não adianta ocultar: vizinhos histéricos no primeiro piso, que se catam e fornicam a noite toda como loucos, pedindo esmola à tarde e guardando a manhã para dormir . A hora de almoço fica para o vício; No rés-do-chão mora uma artista fracassada, que se enche de barbitúricos e Whisky; No topo, um ex-tenor, que perdeu a voz num jogo de cartas com o diabo e na cave, na cave um idoso tenebroso QUE DETESTA CÃES, CRIANÇAS E QUE CRIA POMBOS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Mas todos têm médico de família, rendimento mínimo e as vacinas em dia (aos do primeiro piso acrescente-se a dose de metadona). E pronto, lá se foi o sonho do pobre casal, por sinal com os impostos em dia e a carteira vazia, mas também por uns míseros 400 euros, o que se poderia esperar, um qualquer nome pomposo como "Varandas do Tejo" (o tejo tem varandas???), "Quinta de um sítio qualquer" ou "Alta de Algures para Nenhures"?

Falta o simplex para o arrendamento ou melhor, continua a faltar governo para o simplex.


Não é meu, mas acrescentar o quê!!


Lições de Economia contemporânea

Pela primeira vez no meu blog, vou colocar algo, ipsis verbis, que não foi escrito por mim. Mas quando nos deparamos com considerações às quais nada é preciso acrescentar, ou às quais todo e qualquer comentário não será mais do que redundante, tal não é a acutilância da ideia e a clareza usada na exposição da mesma, nada mais há a fazer do que reproduzi-las na íntegra, tornando aquilo que é nosso, neste caso um humilde blog, em mais um veiculo para a transmissão de um pensamento que, sob o meu ponto de vista, merece o lugar da universalidade.

Assim, Na edição nº 11 do Jornal de Letras de 24 de Março de 2009, o Professor Viriato Soromenho-Marques, usando de toda a sua argúcia, escreveu o seguinte:

"A melhor imagem do curso e da actual crise económica e financeira é a de um tsunami em progressão. Uma vaga poderosa que percorre a face de toda a Terra num número indeterminado de vezes, varrendo mais e mais obstáculos, que, em cada passagem, se erguem à sua frente. Face a essa terrível força destrutiva os recursos conceptuais que temos são escassos. A melhor atitude seria a da douta ignorância. Mas isso seria esperar demasiado da parte de líderes políticos que fizeram suas, durante décadas, as receitas que nos conduziram a este buraco em cujo fundo ainda não batemos. Não só a ignorância que ainda domina é atrevida, como se baseia na ausência da mais elementar memória crítica. No mínimo, seria de esperar que quem nos governa tivesse um registo competente do que aconteceu na crise desencadeada pelo crash bolsista de 1929. Mas não, os nossos líderes não têm memória. Na europa, os princípios básicos da circulação livre de pessoas e bens estão a ser postos em causa por uma vaga de proteccionismo, amparada por declarações insesatas de figuras como o Presindente francês, que ameaçam repetir os erros que em 1930 levaram da crise bolsista à Grande Depressão. A saída efectiva desta crise só acontecerá quando tivermos uma consciência clara das razões que a ela nos conduziram. E quando a partir daí lançarmos uma nova estrutura de regulação das instituições económicas e fianceiras, nos planos nacional e internacional, articulada com políticas públicas assentes nos mesmos princípios. O princípio fundamental da nova ordem financeira, económica e política será a do tempo longo. A humanidade precisa de conquistar um horizonte estratégico de sustentabilidade, alicerçado no reconhecimento dos limites e possibilidades ambientais e sociais que as estruturas e paisgens ecológicas e culturais consentem. E isso implicará uma mudança profunda tanto na gestão dos fluxos financeiros como das práticas políticas. Actores políticos que organizam a sua agenda em função de ciclos eleitorais curtíssimos estão em perversa sintonia com os dirigentes das agências de investimento e da banca que organizavem os seus salários e bonús em função dos lucros obtidos no decurso de um ano financeiro. Sem consideração sobre os impactes ambientais e sociais das duas decisões no médio e longo prazos.
Quem vive como se não houvesse futuro acaba mesmo por abrir as portas para o colapso. Este tsunami começou nas cabeças e nos corações. A sua ultrapassagem terá de passar também por aí."

O tempo, sempre o tempo, o da vida, o do dinheiro, o do trabalho, o das férias, o do sorriso, o da decisão! Nunca percebemos que é tão pouco e tão precioso, e nunca percebendo isso, levados pela canícula, pela ganância, pelo egoísmo, pelo LUCRO, tornamo-lo ainda mais curto, para nós e para os outros, os outros, que contam cada vez menos como outro, e mais como número. Assim, pelo conflito entre género e número, chegaremos, quem sabe, ao conflito da espécie e será ainda mais curto o tempo. Poderosos e mandatários é preciso um grito sob pena de soçobrarmos à luz dos nossos próprios monstros.

domingo, janeiro 25, 2009

Mãe


Michelangelo, Pieta


Sentada na pedra branca, muito limpa, aguarda o final do dia,
Mais um, dos muitos que têm terminado com o toque do sino,
Toque frio, ritmado, que assinala mais um fim, fim esse que teima em não ser um fim de vez.
Mas sê-lo há alguma vez? Poderá sê-lo alguma vez?
É uma mãe, é uma mãe que já não o podendo ser, continua a sê-lo,
Pois não há adeus para o ser mãe. Ela é a vida e para a vida o adeus é a morte.
De menina a mulher, de mulher a mãe.
Na cadência dos dias, lava, limpa, arruma, passa, ensina, sorri e sofre,
Sofre com o crescer, com a expectativa, com a esperança, com as incertezas.
Sorri com as glórias, com as conquistas; aquece e aquece-se com o amor, com a presença.
Ela é mãe, ela é tudo.
Nisto o acaso, a sombra da morte,
E lava, passa, limpa, arruma, apoia e sofre,
Não desiste, continua a labuta e a cadência,
Não desiste, não o pode fazer, afinal é mulher, é mãe, é a âncora da existência, o berço da vida.
E sofre, não desiste, continua o jogo já perdido. Clama por Deus, negoceia em silêncio com o Diabo, mas não desiste.
E à pele sucede-se o mármore, às carícias a limpeza do túmulo, último e tão cruel elo de ligação,
testemunha fria e muda de monólogos que se querem diálogos.
As lágrimas derrotaram o regozijo, a pedra branca, húmida, crua, feia, berço da morte,
Substituiu as esquinas da vida.
E espera-se o toque do sino, afinal há sempre mais qualquer coisa a dizer e a contar,
Afinal não desiste, pois é Mãe.



sexta-feira, novembro 21, 2008

Curtas

Gea

Olho sempre alerta,
O centro deles, o dono,
a espera, o peito sempre aberto.
Poço de carinho, esperança e confiança!
A vida, a vida sempre pronta a ser dada.
Sim, não têm racionalidade, dizemos nós.
E nós temos, mas o que fazemos com ela?
Temos tanto a aprender... e tão pouca disponibilidade,
espera constante, fé numa segunda parte que não virá.
É aqui, hoje e agora.

Raios partam os cães,
que nos mostram o quão limitadamente humanos somos.

quarta-feira, outubro 29, 2008

O Lugar

Sócrates - anónimo

O lugar que ocupamos no mundo é uma questão de fundo, que cruza o nosso horizonte, quer a espaços - quando algo nos acontece de marcante - quer permanentemente, caso sejamos espíritos que se questionem constantemente.
Os futebolistas, tradicionalmente apelidados de "limitados", não escapam a este questionamento, se bem que sendo "limitados", o "mundo" a que se referem seja por inerência, limitado ou mais pequeno. Assim, fiquemos com o seguinte excerto, imaginado a partir da Futnovela do jornal diário RECORD, edição de 29 de Outubro de 2008.

Cenário, inicio de mais um treino matinal na academia de Alcochete:

Miguel Veloso (doravante MG) - Bom dia Mister!

Paulo Bento (doravante Tranquilidade) - Bom dia Miguel, dormiste bem, começou bem o dia?

MG - Iá, desde as 05:30, preparei 3 passagens de modelos, provei 3 fatos e duas t-shirts, arranjei as unhas, o cabelo, pintei os cabelos do rabo... hummmm, mais, mais, ah, e tomei um pequeno almoço equilibrado, pois não me esqueço que jogo futebol.

Tranquilidade - Muito bem. Olha, chegou-me aos ouvidos que não estás contente com o teu lugar no campo, de lateral esquerdo. E que tal um lugar na bancada central, serve-te?

MG - Huuuuu!!!

Pois é, o lugar de MG no mundo acabou de se redimensionar exponencialmente, quer ao nível postural, quer ao nível da amplitude de observação, pois passou da posição vertical à posição de sentado, e isto uns metros mais acima do nível do mar.

Já dizia o velho Sócrates, que uma vida sem exame, não é digna de ser vivida. Aproveita as lições do Tranquilidade MG e talvez ainda vás a tempo de ocupar o teu lugar no teu mundo. Por outro lado, o MG representa a crise educativa da nossa sociedade, que tendo muitos mestres, poucos servem de exemplo e os que o são, ou não podem ou não querem dar o exemplo, pois é mais fácil e lucrativo ser popular do que verdadeiro.

quarta-feira, junho 25, 2008

CT - Desabafo


Internet - A dança da Cadeira vazia, ou trova do vento que passa e quem se lixa é sempre o mesmo


E pronto, já está. Alterações ao código aprovadas, a CGTP-IN out a meio, de forma a manter-se o teatro ipsis verbis, e que vai sair daqui? Bom, para já aqui os desgraçados toca de gastar dinheiro num código novo, quanto ao mais, vamos ver. Amigos, amigos, o problema não vem da lei, mas da EFECTIVIDADE da mesma. Como alguém disse hoje na rádio, um dos ilustres, mas aqui num momento verdadeiramente ilustre, e não, não estou a ser irónico: - Deveria ser criada uma ASAE para as leis do trabalho.

Bem haja.
PS: e que tal uma ASAE para os políticos e políticas?

segunda-feira, junho 16, 2008

Os Caminhos do Amor - Meditação


Pablo Picasso, Florecitas

Os caminhos do amor:

Um dos maiores desafios com que somos confrontados, penso eu, relativamente a qualquer questão durante a nossa vida, é a conjugação entre acção e palavra, especialmente quanto uma traiu a outra, ou mesmo que não tenha traído, uma vez que a expressão é já em si profundamente gravosa, revelou algum descuido para com a mesma.

Nas questões amorosas, e não nos detenhamos a meditar sobre o que é o amor, pois há aí muito de ditatorial, uma vez que o mesmo pode ser vivido de diversas formas, esta falha, esta falta de cuidado, descuido ou traição - no limite, pode revelar-se profundamente gravosa para a relação em questão (senão mesmo fatal) pois aquele que não cuidou, pode tender a exagerar na ânsia de recuperar da sua falta e esquecer-se do equilíbrio necessário, e aquele que não notificou a falta de cuidado, e não morrendo nunca a culpa solteira, pode tê-lo feito tarde demais, criando em si um vazio difícil de voltar a preencher.

Como voltar a ter aquela intimidade explícita num tom de voz, num gesto, numa comunicação surda que só ambos entendem, num nunca estar sozinho, mesmo a milhares de quilómetros, ou num estar a dois no meio de uma multidão? É isto que se perde na falha do cuidar e não a loucura do amor físico, pois que essa recupera-se facilmente, ou não tivéssemos nós toneladas de hormonas.

Se pudéssemos colocar em sacos de mercadorias o físico e o emocional, veríamos que os preços e os próprios pesos seriam radicalmente diferentes, especialmente com o avançar da idade, que acarreta consigo a perda de pudor, ou a desvalorização do mesmo, pelo uso confortável do corpo a nosso belo prazer. Já quando se mexe com factores íntimos, sendo que íntimo aqui se relaciona com aquela proximidade muito própria da emoção, penso que o caso muda um pouco de figura.

O íntimo é o mais difícil de conquistar, é a música silenciosa de qualquer relação, é o espaço onde todas as diferenças se encaixam e resultam numa harmonia fruto dessas mesmas diferenças. A intimidade, na opinião deste modesto pensador, vale por muitas noites de loucura física, até porque o corpo se degrada e vai perdendo fulgor. Corrijam-me se estou errado, sempre, que agradeço.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Pensar, Dizer - A alma do outro lado do espelho

Amadeo de Sousa Cardoso, A Máscara do Olho Verde

Pensar / Dizer

Não me é permitido nem aconselhável dizer tudo o que penso, no modo como penso, pois aquilo que eu digo não é mais do que aquilo que eu quero, ou acho necessário, que os outros saibam ou conheçam de mim, acerca do modo como vejo o mundo e as coisas, mesmo aqueles que eu mais prezo e em quem mais confio.
Caso contrário, corro o riso de me tornar transparente, eliminando o antagonismo que gere o humano, tornando-me em algo tido como garantido, como se de uma posse se tratasse. É um facto que o desejo é fruto de conhecimento insuficiente e não quero deixar de ser alvo de interesse, pois um amor - amor aqui no sentido do desejo, do querer qualquer coisa - desinteressado é um amor desinteressante.

Como nos diz Kundera:

“ […] Um romance é fruto de uma ilusão humana, a ilusão de podermos compreender os outros. Mas que sabemos nós dos outros?”

“ O mais que podemos fazer […] é apresentarmos um relatório sobre nós próprios, cada um apresenta o seu próprio relatório. O resto não passa de um abuso de poder. Tudo o resto é mentira.”


quarta-feira, dezembro 19, 2007


The Speakers of Truth

Por vezes, na nossa vida, com os acontecimentos do dia confirmam-se inquietudes, meditações ou ideias (muitas vezes colocadas de parte ou até mesmo as que nunca foram levadas muito a sério). Expressões, muitas vezes órfãs, ganham uma força avassaladora, esclarecedora. Imagens ou sequências tidas como vulgares, ou superficiais podem tornar-se profundas como o mar, "acontece", dizemos nós.
No filme Uma Questão de Honra o veterano Coronel Jessep volta-se para o júnior e bom vivant Tenente Daniel Kafee e diz-lhe tão só:

The truth, you want the truth
You can´t handle the truth.

O bom e bruto do Jessep estava a dirigir-se à humanidade.

«Os grandes navegadores devem a sua reputação
aos temporais e às tempestades.»

Epicuro, Sentenças Vaticanicas

À sentença, acrescente-se:

E os bravos perduram para além do tempo.

Fica a homenagem a quem já partiu. É também deles este tempo.

Os votos de um Feliz Natal e de um Próspero Ano Novo.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Ser Europeu


Política ou Economia? Casamento Difícil

Caro professor.

Hoje colocou-me uma questão que em virtude da minha resposta me deixou a pensar. De facto foi uma resposta, como fiz questão de observar na aula, fruto de alguma inexperiência e de erro de análise relativamente aquilo que penso que gostaria de realçar quando colocou a questão. Antes de prosseguir devo dizer-lhe por um lado, que fico muito orgulhoso quando me escolhe para colocar certo tipo de questões e causa-me alguma perturbação, positiva neste caso, quando sinto que não estive à altura do desafio, por outro aproveito para lhe expor uma ideia que me assalta de tempos a tempos e que tenho debatido em alguns círculos, a saber, se a definição de cidadão não resultará na definição de cidadão fiscal com as diluições de espaços físicos e culturais (alguns) a que assistimos, ou então se esta diluição não reforçará certos movimentos nacionalistas? Em suma, como se poderá dizer sou isto ou aquilo?

Voltando à questão “ser europeu”. Do ponto de vista conceptual, e passando por cima dos factores históricos que levaram à criação desta velha (nova) Europa, é natural que me sinta orgulhoso, feliz, satisfeito, de pertencer a “este mundo” e não a outro, e neste sentido me sinta europeu. Esta Europa usa como bandeira a liberdade, a igualdade de oportunidades, a integração social, a partilha cultural, a ideia de espaço único, a questão da saúde, da educação, da democracia, da pluralidade partidária, dos direitos humanos, etc. Em certos países, mesmo nos dias de hoje, muitos destes conceitos não podem sequer ser referidos fora dos cânones definidos pelos estados e regimes vigentes. Assim, sinto-me privilegiado por ser europeu e por ser português e não me imagino noutra situação.

Contudo, e penso que a espontaneidade da minha resposta passa por ai, do ponto de vista prático, há alguma desilusão e cepticismo face a esta Europa e também a este Portugal. Há alguma desilusão face aos representantes e também face aos representados, nos quais me incluo, há alguma desilusão face à aceitação duma globalização que considero não global, dos valores defendidos e às vezes parece que o espaço europeu é visto como aquilo que não pretende ser, penso eu, isto é, como uma barreira face aos outros espaços, como se as questões estatais passassem de micro questões, num processo de metamorfose, a questões do espaço europeu e, como tal, em macro questões. Procurando simplificar, num avançar uns metros com as barreiras.

Há algum cepticismo em relação à capacidade desta Europa, e destes políticos, de gerirem as muitas bombas relógio que existem dentro do espaço europeu e as que serão importadas com o alargamento, pois a diferença de solidificação dos regimes políticos e dos valores europeus, que até este período têm sido mais ou menos homogéneos (se bem que Portugal e Espanha aquando da entrada na CEE tivessem saído de ditaduras há relativamente pouco tempo, mas tinham por trás de si alguns séculos de história que já haviam conhecido certo tipo de valores que hoje se defendem). Vejamos como reage a velha Europa à questão Turca, à questão Israelita e às recém criadas repúblicas de leste.

Do mesmo modo, mesmo dentro da velha Europa, espero que um dia não façamos uma analogia com a pobre velha música de Pessoa, existem práticas e metas diferenciadas que nos podem fazer sentir menos europeus ou europeus de segunda.

“Tive um sonho”, disse Martin Luther King, não o chegou a viver. Eu não sou uma pessoa muito viajada infelizmente, mas na última vez que o fiz, foi para me deslocar a Paris. Já havia lá estado e não quis subir a torrei Eiffel com os meus familiares e amigos. Ao invés, sentei-me no chão, mesmo no centro da torre, fechei os olhos e senti-me a viajar pelos quatro cantos do mundo, única e exclusivamente graças aos idiomas. Tive a experiência de cidadão do mundo, de igualdade na diferença, sem barreiras. É poesia existencial, de valor estético, sem dúvida, com uma modificação ontológica localizada, mas foi uma sensação de pertença, de forte pertença à espécie, ao mundo. Seria perfeita a transposição para o plano geral, das nações e dos ideais. Mas estará a espécie humana preparada para ser humana? Foi um à parte, não resisti.

Espero ter-me feito entender e desde já agradeço todas as questões que me colocar e todas as dificuldades com que me faça deparar. Serão recebidas de bom grado, assim como os seus conselhos.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Simples mas eficaz: O retrato de 66 anos de CIA

Edward Munch, The Murderer

«I am not afraid from them....
me fear is from guys like you.
You make the big wars.»

«Wrong, we see that they stay small.»


Robert de Niro, The Good Shepperd, Dialogue between Joe Pesci and Matt Damon

sexta-feira, agosto 24, 2007


Andy Warhol, The World Fascinates Me

Meditação:

O ser humano constiui-se numa sensação de falta entre a esperança e a saudade, entre o que se quer ter e o que se teve, sempre movido pelo desejo. Assim, somos um esquisso entre nadas. Esquisso, porque estamos sempre em falta, em carência; Nadas, porque o que foi já não é e o que vai chegar ou pode vir a chegar, ainda não é.
Deste modo, somos caminhantes que na mochila levam esperança, saudade e também algo que comer.

Saudade

Pablo Picasso, The Old Guitarist

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa



Saudade, saudade, essa expressão tão portuguesa, segundo dizem. Saudade, saudade daquilo que foi, que nos marcou, que nos fez sentir vivos. Saudade, essa forma estranha de sentir a falta de alguma coisa, esse querer agarrar os tempos que passaram, os tempos e os seus conteúdos, esse querer ser aquilo que já se foi, querer ter o que já se teve. Saudade, que nos reduz ao mais elementar daquilo que é ser humano, o perecível. Saudade, o peso do ser consciente de si, o peso da razão. Saudade, saudade de um cheiro, de um movimento, de um rosto, de um toque, de um reflexo, de uma frase, de um ano, de uma fracção. Saudade, como se algo sem forma, sem peso, sem matéria, mas ao mesmo tempo tão massivo, nos pudesse tocar. Saudade, saudade de ti, dele, deles, saudade de mim. Saudade, que pelo meu ser já tão morto, me fazes lembrar que estou vivo.

quarta-feira, março 28, 2007

Salazar; Democracia? Tolerância? Liberdade? Apatia....


Eduardo Neves, Cruzamento: Lisboa Cinzenta num Final de Tarde

Não se pode deixar de ficar perplexo ao pensar na contradição existente entre o que o nome António de Oliveira Salazar representou e representa. Trata-se de uma pura antítese. Agora, perante isto, devemos tirar ou chapéu à sociedade e à democracia portuguesa ou enfiar o barrete até bem fundo? Sinceramente, acho que devemos ficar a meio de ambas o que também não deixa de traduzir aquilo que a nossa sociedade é há já muito tempo, isto é, um meio "qualquer coisa" entre dois pontos de "qualquer coisa" que nunca chega a ser verdadeiramente nada, por muito bom ou muito mau que isso seja.

Regressando ao tema propriamente dito - com laivos de canal privado especialista em sensacionalismo barato - da eleição do maior português de sempre. Em relação ao mesmo devemos analisar o problema, no meu ponto de vista, a partir de uma questão chave. Assim, em reposta à questão "como é isto possível?", devemos por um lado, elogiar a maturidade da democracia portuguesa - e a capacidade de superação ou esquecimento - mas por outro, caso sejamos democratas e pluripartidários, pensar em três pontos fundamentais, a saber: 1 - Onde andaram os políticos nos últimos 36 anos? 2 - Onde andámos nos últimos 36 anos? 3 - E o terceiro não é uma questão, mas uma afirmação, ou uma suspeita, ou seja, a responsabilidade virá para cima de uns quantos incultos e de um sistema de votação que não toca a verdade, pois quem é decente, quem pensa, não alinha nestas coisas. Conclusão, há por aí muito indecente.
Contudo, o que se deve ler no ponto numero 3 é que o mesmo é a causa dos dois anteriores, isto é, a constante desresponsabilização dos políticos que culpam sempre alguém, em ultima instância mesmo quem neles vota, por isto ou por aquilo, sem que façam exercícios de autocrítica. Esse comportamento típico é que causou tudo isto, por muito de somenos que a questão tenha. Pois de facto, nada mudou - do ponto de vista da estrutura política - no nosso país desde o passado Domingo. Mas e nós? Não teremos nós forçosamente de ter mudado? Não nos terá feito pensar, pelo menos pensar? Sou de esquerda, filiado, mas na verdade sou só mais um, um pendura.

Conclusão, Salazar, mesmo morto, deu um salto ontológico e tornou-se estrela principal do texto escrito há anos por Mário Zambujal, intitulado "Crónica dos Bons Malandros"

quinta-feira, abril 20, 2006

Meu Velho

Saint Marie de la Mer - Vincent Van Gogh

«Everything about him was old except his eyes

and they were the same colour as the sea and were

cheerful and undefeatead.»

Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea

Lisboa, 3 de Abril de 2006, numa cadeira da faculdade

Ao longe, o mar

Não tinha os olhos azuis, antes pelo contrário, eram castanhos, pequeninos, curiosos, de "boxeur" como ele dizia, pois adorava boxe, mas seguindo o ponto de vista de David Lynch, no seu filme Dune, no qual os Fremen - o povo do deserto - ficavam com os olhos azuis em virtude do contacto com a especiaria, isto é, identificavam-se fisicamente com a sua vida, com a sua forma de estar (ou seja, tornavam-se aquilo que eram em virtude daquilo que faziam, havendo nesse sentido uma essência que se constrói por metamorfose) então os seus olhos tinham o mais profundo dos azuis.

Faz hoje oito dias que partiu, que agarrou nos remos pela última vez e zarpou, rumo ao horizonte, lá onde o céu se mistura com a terra. Ajeitou o seu boné, a "minha cabeça" como tantas vezes disse, sorriu e disse até logo. De certeza que está com duas ou mesmo três pescas na mão e ainda consegue remar, sim, porque o seu motor de bordo só serve mesmo para "ir com a enchente e regressar com a vazante". Era o que nos respondia quando nos referíamos ao pequenino motor de dois cavalos. Respostas de teimoso e de gozão, de anzol como lhe chamavam.

Era assim na vida e não só nas respostas. Era teimoso e discutia cada assunto de forma convicta e inflexível, sem ceder um milímetro. Ouvimo-lo argumentar muitas vezes que "só é penalty porque é contra o Benfica" ou "na Madeira sobe-se mais do que aquilo que se desce". Era de exasperar. Mas até dessas coisas tenho saudades. Pela primeira vez em quatro anos, isto fora todos os almoços de fim-de-semana, ou durante a semana, quando mandava chamar os netos porque tinha peixe fresco para o nosso almoço, estou sozinho em casa. Já não lhe escuto a bengala, já não lhe escuto as lamúrias pela doença, nem pela sua já ida Maria, já não espreito no quarto para vê-lo a fazer ginástica com o braço paralisado. Já não lhe escuto os elogios que me fazia quando vestia o traje "eia, todo nito, és elegante e deves ter muitas atrás de ti. Isso fica-te bem é a ti e não àqueles gordos malfeitos" ao que respondia chamando-lhe velho atrevido e dando-lhe um carolo na careca. Já não oiço mais a perguntinha da praxe se o jogo de futebol que ia jogar "dava na televisão e em que canal". Sinto saudades da bisbilhotice de cada vez que ia sair e me perguntava "onde vais e a que horas vens? ..... Para Lisboa, a esta hora, já tão tarde, não vais fazer boa.." e eu que detesto que me perguntem o que quer que seja. Já não o levo às sardinhas nem ao choco frito, onde discutia comigo ao milímetro quem comia mais e me rebentava os nervos com as horas, sim porque qualquer hora depois do meio-dia dava direito à piadinha das "três da tarde" e de "já comeram o peixe todo".

Na fase final da doença, voltava-se contra mim muitas vezes, ao que lhe respondia que já não era ele a falar e que se acalmasse. Recuperava, pedia-me desculpa, dava-me a mão e dizia "vamos ficar amigos que gosto muito de ti". Muitas vezes perdi a cabeça, sentia falta de capacidade para tamanha aberração do ser humano e almadiçoarei esses momentos para sempre.

Foi assim o dia a dia com o meu lobo-do-mar, do céu ao inferno, o meu boletim meteorológico. É duro para o ser humano experienciar as regras da vida através de acontecimentos com os que mais gosta. Somos um mau laboratório, com emoções, e é muito nazi sofrer à proporção do amor sentido, mas a vida é mesmo assim. Era um amigo, um companheiro, um pai, foi tudo, ajudou-me e preocupou-se até ao fim. Nos últimos dias pediu-me a morte por mais de uma vez, ao que respondia "não está nas minhas mãos meu velho, está nas mãos de Deus, senão dava-ta, para partires em paz, meu velho". Dizia isto com dor, mas de bom grado, pois já não era viver, tamanha energia, tamanho vigor, não mereciam estar ali presos naquele resto de corpo, naquela mente 90% já ida. E a hora dele chegou e fui assaltado pelos maiores terrores, pela perda, pelo irremediável. Já não o verei mais, terei de me reduzir à chaga da memória, que falta de poder este. A vida é maravilhosa, já as suas leis não têm especial piada.

Naquela noite, em que a respiração já era ofegante e em que a sua alma já havia partido, fui dar-lhe um adeus antes de me ir deitar, sem que a crença de que iria resistir me abandonasse. Mas a respiração, o não se manifestar, a sonda cheia e até o nervoso miudinho do cão que teimava em não abandonar os pés da cama, não me davam margem para grande esperança. Era a crónica de uma morte anunciada, era a gadanha que estava prestes a cair face ao eminente xeque-mate.

Mas a crença, a crença, a esperança, é onde se joga o horizonte de possibilidade do humano e nunca nos abandona e quando o faz é o caos, é o fim. Tinha-me ido meter com o velhote durante a tarde, desafiá-lo para a pesca, pois de cada vez que me ausentava, no regresso ia sempre meter-me com ele. Depois de chamá-lo algumas vezes e de lhe dar a mão sem resposta anímica, disse "já cá não estás meu velho".

A minha mãe, que não o deixou um minuto (coisas de mãe), entrou-me dentro do quarto às 03:15 e disse-me que o avô havia partido. Fui vê-lo, tapei-o e fui repousar. Xeque-mate, perdeu finalmente o jogo. Ali ficou, inerte, até ao raiar do dia, mas já não era o avô, já não havia o sopro. Olhava-o de alto a baixo, procurava um franzir de olhos, imaginava que via o peito a mover-se, mas era do cansaço, do desespero e da .... Esperança. Havia mesmo partido. Eram 11 horas quando o foram vestir e buscar. Depois de vestido, enquanto tratavam de tudo que se relacionasse com a transladação, coloquei-me na cabeceira da cama a conversar com o meu velho, mas não me respondia. Ofereci-me para o carregar, mas não me deixaram... só não o queria deixar partir.

Já passaram oito dias e ele teima em não regressar a casa, será que está bem?

«He was still sleeping on his face

and the boy was sitting by him, watching him.

The old man was dreaming about the lions.»

Ernest Hemingway, The Old Man and the Sea